sábado, 9 de janeiro de 2021

O HOMEM NO AR

 

No colégio estadual aos nove anos de idade a vida parecia envolta por uma bruma mágica. Talvez seja o filtro da memória responsável por tal percepção, porém esse filtro não distorce completamente o registro. Fotografias inexistentes da criança que eu fui naquele colégio, impõem à memória o esforço de buscar outras referências além dos detalhes puramente exteriores para resgatar os acontecimentos importantes daquela criança naquele ambiente. “Havendo vontade de memória, mobiliza-se em si tudo o que é de ti”. Movido por este pensamento mobilizo minha vontade e dou um salto. Me distancio do espaço e dos detalhes-lugares e vou além da bruma e do colégio, encontro apenas uma qualidade mágica e nela eu sou a criança-ambiente. Contemplá-la revelou-me a primeira vez que o sol brilhou na minha paisagem-pessoa. Foi quando percebi o coração acelerado após o espanto de uma grande descoberta. Sentimento de suspensão causado pela euforia frente à revelação do mais profundo desejo, semente-pulso no mundo, oculta ainda que presente desde o meu nascimento. A memória fixa naquele instante, especialmente na percepção do meu coração, a cada batida-pulsação recompõe o cenário desta narrativa para chegarmos à revelação da causa do meu encantamento. 

O colégio estadual era um espaço agradável ainda que tivesse arquitetura de cárcere. Possuía amplas janelas e muitas salas de aula distribuídas em imensos corredores. Alguns me davam medo, em especial um corredor escuro distante da sala de aula e onde ficava o laboratório de Ciências. Lá havia um esqueleto humano em tamanho real exposto em uma cápsula de vidro. Há muito tempo desativado não haviam aulas ali, o abandono fez dele um espaço próprio para filmes de terror e o motivo de curiosidade para todas as crianças. Conseguir espiar o esqueleto, mesmo que por um segundo era um grande desafio e uma missão vestida de brincadeira. Para sustentar tal audácia minha respiração ficava cada vez mais intensa quando me aproximava do corredor abandonado, frequentemente alguma luz piscava como que por ação de fantasmas. Poucos segundos, tão logo a visão do esqueleto era conquistada, rapidamente saia correndo daquele corredor. 

Certamente meu coração acelerava nestas missões. 

       No colégio estadual, ainda que tivesse arquitetura de cárcere havia um grande pátio onde frequentemente eu corria e pulava-corda. Era um espaço de bastante liberdade. Nos dias quentes, molhava a cabeça em um bebedouro e antes que fosse necessário voltar à sala de aula, estava completamente seco, tendo apenas um leve odor uma essência do suor infanto-juvenil como vestígio do banho incompleto. Corria e pulava. E correr era como pular, pois não tocar os pés no chão é ser tão de nem caber em si. 

            Certamente neste momento meu coração acelerava nesse "sertão" que pulava e fazia pulsar o tecido da camiseta ensopada 

No colégio estadual, ainda que tivesse arquitetura de cárcere havia uma biblioteca. Trancada ao lado da Diretoria era inacessível e pouca liberdade notávamos ali, razão suficiente para não partirmos em missões para aquele espaço. Até que pela primeira vez e a contragosto entrei ali. Entramos. Mas naquele momento foi como se eu tivesse entrado mais do que os outros. A biblioteca era um espaço menor que a sala de aula e bem iluminada por amplas janelas, estantes com livros bem organizados, mesas redondas e no centro uma mesa repleta de livros que nós poderíamos folhear durante aquela aula. Fui um dos últimos a escolher e pegar um livro dado o meu descontentamento de estar ali; queria correr, pular e ver o esqueleto humano em tamanho real. 

Agora, o ponto zero desta memória. 

Escolhi um livro sobre o continente Africano e uma imagem deste livro fez meu coração acelerar sem que eu estivesse em missão ou correndo até pular. Estava completamente parado e entediado, debruçado sobre o livro e diante da grande mesa circular, sozinho e rodeado de amigos-crianças que unidos pela infância são em si companhia. Por um segundo e tão ligeiro quanto a visão do esqueleto em cápsula, senti meu coração acelerar diante daquela imagem. O homem no ar levitava e confirmava a minha cordial esperança: “O Homem Voa!”. De mesa em mesa compartilhei meu espanto com outras crianças: “- Olha! Esse homem voa, é possível!" Minha euforia contagiou aquelas crianças que foram comigo esclarecer com a professora aquele fenômeno. A professora viu a imagem e observou o meu, o nosso espanto e nos ensinou... Do meu espanto aprendi: 

“Que máquinas fotográficas são capazes de registrar o ponto zero de um salto em pleno ar; e que no tempo fora do tempo e no espaço do não habitual somos capazes de voar”.

                                      

                                                                              Luis Carlos Rodrigues dos Santos

                                                                                               

AQUÁRIO COM A LUA EM PEIXES

 

foto: Luciana Pamplona
                                                                                   

Hoje pela manhã, pouco antes de tomar coragem de sair da cama tive uma espécie de sonho. Não sei você já teve essa experiência de no “quase” sono profundo, vagar por uma região oleosa que chamamos de sonho. Porém o sonho que tive era uma única imagem, um peixe num aquário.

Estava prestes a acordar e pela janela os feixes de luz revelavam o movimento do ar na poeira suspensa que agora ganhava novos contornos com o movimento do dia. A noite ia embora e deixava algo do seu silêncio noturno naquele flutuar suave da poeira. Estava prestes a acordar e já ouvia todo o movimento que o dia trazia. Estava prestes a acordar e deitado de barriga para cima com as costas bem apoiadas no colchão, sentia em algumas partes do corpo o espaço entre minha pele e o cobertor, essa impressão de alguma maneira foi conduzida àquela região oleosa e lá tal impressão transformou-se na imagem de um peixe num aquário. 

Enfim tomei coragem e levantei. 

Hoje é segunda-feira e para aumentar o isolamento social foi decretado feriado em todo estado de São Paulo. Como eu não tenho nenhum compromisso fiquei mais tempo na cama. Não é que eu não tenha nada para fazer, mas tudo indica que hoje não farei muita coisa. Na verdade já havia me preparado para isso no dia anterior quando resolvi que me daria um tempo, me entregaria ao ócio (des)produtivo. Meu único compromisso é com o fluxo do dia e se for para produzir algo seu próprio desenrolar será a minha força de vontade. 

Tempo e produção tornaram-se quase que exclusivamente as principais medidas de existir. Imagine em plena segunda-feira, em plena pandemia me dar ao luxo de não fazer nada. Definitivamente não é nada justo afinal, há tantas pessoas sem renda... Eu tenho alguma reserva de dinheiro e tenho o meu salário, que até o momento ainda não sofreu nenhum corte. E sim isto é justo, pois eu estou trabalhando de casa e diria que estou trabalhando mais, preciso estudar muito para poder me reinventar e desenvolver os meus projetos. O contato maior com a máquina do que com as pessoas me desgasta… 

Ainda sim, definitivamente não é justo o que todos nós estamos vivendo.

Fui até o quintal e fiquei um tempo com uma xícara de café na mão, sentado no chão de olhos fechados aproveitando o sol. Apesar de ter dormido razoavelmente bem ainda estava com sono e fechar os olhos me trouxe alguma sensação de conforto e descanso. A luz do sol em contato com as pálpebras cria um mundo vermelho, quente e com movimento. Diferente de quando no quarto sem luz fecho os olhos e solto meus pensamentos num campo totalmente escuro. Existe ali espaço para que  minha alma e todas as minhas impressões diárias não mais se expressam como casualidades no tempo. Se não há influência direta do espaço em nossa experiência imediata, por exemplo quando dormimos deve haver mais tempo disponível na sensação do tempo que temos, por exemplo quando sonhamos. Mas não tenho muita certeza disso, afinal a certeza há muito tempo se tornou o instrumento dos poderosos. E se um dia a certeza tinha uma forma rígida, de natureza universal eterna e inflexível hoje ela é plástica, decadente, mole e acima de tudo uma opinião pessoal. Certeza é questão de opinião, você não acha? Pois eu acho! Diria até que tenho certeza. Assim como tenho a plena certeza de estar com fome agora, porém aqueles que têm fome, têm fome e não uma opinião. 

A minha fome é diferente da fome daqueles que têm fome e isto é um fato. Fiz dois sanduíches com queijo e fatias de tomates, petisquei algumas azeitonas que estavam na geladeira e tomei um copo com limonada e algumas cervejas. Deixei de lado minhas reflexões sobre o tempo e a fome porque nesta altura da tarde sempre me dá sono e uma vontade de deitar, mas não deitei. Não era justo com a minha (des)produção nem com a minha condição de confinado privilegiado; alguém sem grandes preocupações e seguro na rotina e inevitavelmente na armadilha de si mesmo onde é muito mais fácil diluir-se nos outros do que encarar a concentração de si, especialmente quando estamos abandonados em nós mesmos. Depois do chá da tarde senti mais vontade de deitar e então preparei um café e não deitei, porém deixei o sono existir pois quando o sono existe e você não está dormindo ele é sonho. 

Então sonhei... 

Voltei para o quintal com outra xícara de café na mão e com o cair da tarde a temperatura caiu, contudo o clima permanecia agradável tal qual o silêncio que crescia e envolvia o bairro. Momentos como estes são como prestar homenagens ao nada reconhecendo tudo o que não está presente. Agora já está escuro e a noite rompeu o dia, desfez suas atividades e aquietou seus movimentos. Relegou à um novo dia a esperança do não experimentado, pois cabe à noite o recolhimento cuja calma necessária é capaz de refletir a claridade do dia para dentro de si. Demorei para entender que o sol quando desaparece no horizonte não nasce no Oriente, mas sim se permite refletir interiormente. Muito do que eu penso parece profundo, mas no fundo nem é pensamento é puro sentimento de tédio e frustração, é só sentimento e sentimento passa.

Mais algumas cervejas e um prato com macarrão, são suficientes como jantar. A lua está nítida deixando a noite clara. Pego na geladeira minha última cerveja. Vou até o quintal e me sento no mesmo lugar que sentei hoje mais cedo. No fim sinto que vivo além da permanente alternância dos fatos, sinto que caminho numa região distorcida localizada entre o dia e a noite, entre o sono e sonho, entre mim e os outros. Porém é só um sentimento e sentimento passa. No momento só não passa a indignação que também é um sentimento enquanto não vira ação, e que também passa. Pensando bem, já que amanhã também foi decretado feriado irei escrever um texto sobre a importância do isolamento mostrando minha opinião vestida de certeza. E que o vidro do aquário seja a tela do meu computador e também meu cobertor, interface entre o peixe e o tudo onde o contato com as águas do mundo sou eu em plena realidade.

Distorcida pela falta de ações, a vida do peixe que nasceu e morreu no aquário, mesmo achando que nadou tudo que podia nadar, no fim nadou pouco. Viu a lua, mas não conheceu as marés.


                                                                        Luis Carlos Rodrigues dos Santos

                                                                       📷Luciana Pamplona

 

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