Andei por diversos caminhos até chegar nesta sala. Aqui, logo de início senti uma vontade imensa de falar sem abrir a boca. O nada que a sala manifesta revela a solidão verdadeira. Claramente no escuro de mim recorro às palavras como companhia, mas aqui nesta sala não há vento nem som e se para falar necessita-se de ar, não respiro. Neste lugar a fala é raro-efeito. Escrevo.
A sala caminha quando eu ando e ao meu redor nada muda, apenas me sinto diferente; aliás o único movimento perceptível nesta sala desde que cheguei aqui é sentir-me diferente. Como cheguei concretamente eu não sei, andei por caminhos incertos até chegar nessa sala, só sei que cheguei motivado por uma busca. A busca por ser inteiro. Para isso me fragmentei, nomeei todos os meus pedaços e depois me diluí para ser contido nas águas das relações. Para estar disperso entre as pessoas e para ser uno com o mundo, me concentrei. Condensei como uma nuvem... Conto.
Gosto das manhãs, especialmente da experiência do despertar. Do breu do sono profundo à alvura da luz ofuscante, as manhãs são brancas. Mas a manhã a qual me refiro passa rápido, pois logo você se acostuma, seus olhos se acostumam. Acordar de início é uma página em branco igual a essa sala. Por um segundo não sabemos como fomos parar ali - ou aqui - e no segundo seguinte, assim que contornos se revelam os próprios segundos se revelam. O despertador toca e você levanta. Prepara o café e olha no espelho, elimina o que não foi assimilado pelo seu corpo e depois se olha no espelho de novo, toma o seu café e só depois segue…
O hábito de olhar pela janela da cozinha, janela que olhei tantas vezes me mostrava algumas paisagens. Um dia vi a nuvem, notei e reparei. Por algum motivo firmei mirada, não piscava como que hipnotizado sem pensamento, momento que passou rápido.
A nuvem continuou lá. Outros pensamentos aqui.
Seguia entre afazeres, ora firme e calçado no chão passo após passo, ora desengonçado agitando pernas e braços em piscina funda. Imerso e sem bóias entre nuvens e manhãs. Nesta e em todas as folhas em branco as nuvens e as manhãs, eram (agora) inúmeras lembranças: um dragão no céu que segue o carro; a primeira manhã da primeira manhã de domingo; ver pela segunda vez um homem voar; abrir os olhos no fundo da piscina; se afogar…
O dia ia entre noites e memórias. Mas a nuvem continuava lá. Maior e um pouco mais perto, o vento não a movia! Uma semana depois, as manhãs ficaram ainda mais brancas e esse incômodo passou a me acompanhar, pois a nuvem estava sempre à minha vista. O hábito de tomar café olhando a janela tornou-se amargo. Na outra semana as manhãs ficaram ainda mais brancas e perdi na brancura dos dias os velhos hábitos diários e as memórias do dragão e da primeira manhã… Ainda sim, cumpria os afazeres.
Depois de algumas semanas, as manhãs continuavam brancas e a nuvem permanecia parada e cada vez mais perto, mas isso já não incomodava. Até que um pássaro começou a cantar. E se os pássaros são pedaços que colam e descolam do alto, seus cantares são pedaços de diversos tons de azul que entram pelo ouvido que nos fazem sair para ver a voz em voo. Mas desde que a nuvem tomou a minha paisagem qualquer chamado para a vista não se realizava, por isso aquele canto não me afetava, eu não o-via. Sem café não busquei mais a janela e me desfiz completamente dos antigos hábitos, mas cumpria com o dever de habitar. O pássaro cantava um sol monofônico e a nuvem continuava lá, branca como as manhãs, aqui e cada vez mais perto.
Até que o tempo perdeu sua substância, os segundos perderam seus contornos e o dia se desfez.. Foi quando finalmente a nuvem entrou pela janela. O canto do pássaro era a própria nuvem, modulou-se em tons de branco e já não se ouvia o som do sol. Cego e surdo, empurrei a nuvem para fora de muitas formas e o quanto pude. Até entrar e ser uno com a ela... Fazer das manhãs esta folha em branco foi como cheguei nesta sala e é como hoje eu caminho nela.