segunda-feira, 8 de novembro de 2021

HISTÓRIAS DE MORTAL

                                    




Um dia Deu(s) um salto mortal.
E esse dia ficou conhecido como: Big-Bang’.


O primeiro salto mortal da História. Instinto de sobrevivência, possivelmente um acidente ou recurso de agilidade no ambiente. Uma queda tomada pela consciência, descoberta que virou partilha que de tanto compartilhar virou brincadeira e desafio. Salto mortal nasceu como uma bola, em forma de feto. Mortal grupado é o Mortal ancestral. Imagina uma pessoa pré-histórica que escorregou em uma cachoeira e “puxou grupado”. O primeiro mortal foi grupado e do chão para a água. Salto mortal sem morte que virou diversão. "Não sei, vou pesquisar no Google. Pode?” Salto mortal não tem utilidade de vida ou de morte. Afinal, alguém que foge de um animal feroz não é dando saltos mortais que vai evitar a morte... O salto mortal aconteceu como expressão da ginástica, razão científica que pesquisa as habilidades do corpo visando o aprimoramento técnico esportivo.   


Lembra quando caiu e torceu o pé pulando da janela do quarto da mãe e foi pra rua,  acorda de madrugada e observa a janela do quarto, nota que as luzes da rua refletem na parede. Histórias são uma reunião de família num dia ensolarado, uma rede no quintal; irmãos, primas e primos, todos disputando pedaço de rede, balançando e rindo; rindo e balançando... Até que a rede caiu e da queda outros movimentos. Ali havia um parquinho e um dos brinquedos era um “trepa-trepa” em formato de foguete. Escalou o brinquedo, subiu e subiu mais ainda, seu objetivo era o topo, a ponta do foguete em sua forma piramidal. Subiu e foi direto ao ponto de encontro que aponta para o céu, com as duas mãos agarrou uma das três barras que formavam o bico. Metal gelado, molhado e liso… Escorregou e caiu. Lembra da queda e do rosto no chão; uma pedrinha e um corte machucado. Primeiras memórias.


Foi para o esporte, o primeiro treinador super disciplinado e disciplinador trabalhava com a base e não era muito técnico. “Certa vez ele me deu um soco na barriga para corrigir a minha postura, doeu e não contei para ninguém, nunca me esqueci disso. Eu tinha nove anos e muitos riram de mim.” Algum tempo depois foi levada para fazer um teste no “Municipal”, não gostou daquela situação, “das meninas me olham torto”, na audição errou de propósito e não foi aprovada. Seu irmão mais velho fazia Ginástica e em casa brincava de treinar. Ela como parceira nessas brincadeiras experimentou outro grau de sentido com a prática. Acompanhou as primas em uma aula de Jazz, a professora a convidou e ela nunca mais saiu. Porém ao participar de uma seleção para a equipe de Ginástica Artística no colégio não foi aprovada por não ter o “corpo padrão”.  Gostava dos seriados japoneses que passavam na TV, admirava os saltos mortais e a ação. Queria ser aquilo, Ninja. Aos 09 anos de idade conhecia dois meninos que eram assim; Ninjas. Eles faziam Capoeira. Pediu ao pai para ir com os meninos até a roda de Capoeira e aprender o salto mortal. O pai não autorizou. Em resposta, emitiu um definitivo “Não” expresso em tom religioso;  perigo maior é ir contra o Pai. Aquele “Não”, pesado de preconceitos, o colocou no chão. Mas foi só por um tempo… 


O primeiro mortal aconteceu depois de ter aprendido o flick (não se lembra do processo) afinal era só fazer um flick mais alto sem por a mão no chão. Estava longe do treinador, brincando. Possivelmente foi em um brinquedo “pula-pula”; um mortal de frente. Ela tem mais memórias de ser lançada para o mortal do que a sensação do impulsionar-se. Impulso é a Base. É técnica também. Força para acumular energia e empregá-la em uma direção. Com a Base aprendeu a confiar e fez do se deixar lançar seu próprio impulso.  O seu primeiro Salto Mortal aconteceu na fase adulta. Encontrou uma escola de Circo e nesta escola encontrou professores. Nesta ocasião conheceu o “Minitramp”, objeto com molas que impulsiona a pessoa. Incentivada pelo professor, pegou gosto pelo aparelho e foi aprendendo a confiar em si mesma,  e ao controlar o medo que a fazia saltar baixo pôde, no “Minitramp”, em saltos verticais com o corpo reto, estendida, adquirir a tranquilidade de estar em suspensão. E ao trazer os joelhos no tronco; grupada fazendo-se ponto, viu o ponto-zero.  Sentiu o tempo em “câmera-lenta”.  Ainda sim, para ver o ponto zero ouviu que precisava abrir os olhos; ela ouviu, ela abriu e ela viu o que não se pode ver, mas que depois de visto vira consciência, depois do giro e depois da volta, volta à terra, senti em pensamento que o tempo é do chão pois no ar não há tempo, talvez duração... Lembrança: efêmera imensidão! 


Diz que não tem muito tempo de voo, mas sente que o tempo no salto mortal é diferente. É mais do que um intervalo; é um instante dilatado de difícil contemplação. Se alguém lhe pedisse um conselho sobre como fazer um salto mortal ele diria: “Grupa! Puxa o joelho no peito com força. Gira!”.  Com a prática se percebe mais tempo. Percepção que lhe aconteceu quando estava treinando um salto mortal com um giro longitudinal de 360º. Depois de várias tentativas e já conquistada a pirueta de 180º, ele conseguiu quando ninguém estava vendo. O seu professor viu de relance e veio comemorar pedindo que o ele fizesse de novo. Ele repetiu e conseguiu mais uma vez. No entanto, o olhar atento do professor estranhou a execução do movimento, mas não identificou diretamente o motivo do estranhamento. “Vamos filmar! E ver em câmera lenta.” Um salto mortal com meia volta indo e meia volta voltando. Ir não indo e ainda sim avançando, pois no que diz respeito ao estado de suspensão, aquele dia ele saiu do lugar. 


A cabeça e o olhar são importantes. Sem o olhar a cabeça fica perdida e perdida perdemos o salto. Ele percebe o tempo dilatado quando muda de eixo, especialmente no giro, outro eixo,  mortal com pirueta. É nas mudanças que notamos uma suspensão. Nesse caso a referência visual é consciente, descrita na técnica. Por volta dos 15 e 18 anos tinha muita impulsão, mas também a noção de haver um apoio longe do chão, uma base no próprio tônus que possibilita outra impulsão; duplo estendido. Cada mortal tem sua técnica, por isso existem tantos mortais. 


Confiar e ter paciência de esperar o tempo quando o tempo muda. Em suspensão o pensamento deve ser suspenso. No lugar do não lugar e no tempo do não tempo não há espaço para o racional, pois no ar se você pensar você cai. Aqui, pensar demais te faz perder o controle. Tomar consciência do tempo e do giro é quando o corpo vai entendendo. Inclusive ao aterrissar primeiro lhe vem o pensentimento: “caramba consegui!”, depois pensamento puro que diz: “Corpo registra, pois não sei o que fiz racionalmente." Na fila antes do salto, na platéia gente querida e a cada colega-acrobata que tomava impulso e corria em direção ao aparelho impulsionador, ela pensava: “Vai chegar a minha vez. E eu vou cair”. Quando chegou a sua vez despensou o pensamento corriqueiro. Medo. Em seu lugar a vontade pensamento: “Durante o salto mortal, abra os olhos!”. Estado de presença; milisegundo: lugar de decisão. Abriu os olhos e não viu além do giro, mas decidiu ver  o que fosse, decidiu ficar um pouco mais ali suspensa. 


De lá pra cá passou a se relacionar com o espaço de um jeito completamente novo. Seu olhar sobre as coisas agora busca a possibilidade de exploração acrobática. Se expor ao risco de dar um salto mortal o faz sentir-se vivo, onde a corrida para pegar impulso é um momento pleno de autenticidade. “Você com você”.  Escolhemos padrões por serem padrões sociais que não escolhemos diretamente, mas que indiretamente configuram nossas relações. Isso ficou claro quando saltando na cama-elástica acidentalmente ele fraturou o pé. Ao chegar na empresa onde trabalha os colegas o receberam perguntando: “Jogando Bola?”; “Não. Cama-elástica.”; “Você não tem mais idade para isso”. Ao lembrar essa situação ele diz: “Se fosse futebol eles seriam solidários?”


Aterrissar é questão de ângulo. Até que em um campeonato sendo eles a dupla favorita, minutos antes de serem chamados para o tablado, como parte do aquecimento decidiram fazer um mortal com "catch", elemento mais complexo e valioso da série deles, estavam seguros mas sentiram que precisavam fazer mais uma vez para sentirem total confiança. Ela caiu. Seu irmão mais velho cometeu um erro, pois o salto foi no tempo. Naquela vez quem perdeu o tempo foi a Base. Será que pensou e perdeu o controle? E, se pensou, que pensamento? A queda foi grande susto, não custou lesão. Concentrados se acalmaram e calmos foram perfeitos. Nesse dia venceram a última competição juntos. “Será que esse é o meu caminho?”. Depois disso não via na competitividade motivo. Viu no Circo nova possibilidade de ser, lugar onde a expressão artística caminha, onde a capacidade de comunicar-se com o público vai além de qualquer competitividade objetiva. Onde uma “ponta de pé” é antes um recurso expressivo do que uma convenção arbitrária de árbitros. 


Acrobacia é controle do corpo e precisão para realizar o inimaginável, o fora do comum. Inclui um certo nível de loucura na vida, coloca a pessoa acrobata fora da curva da normalidade. Atualmente dedica sua disposição acrobática não mais como atleta e sim, como Artista. Na postura invertida descobriu outro grau de confiança, assim como outros lugares de suspensão do tempo e do pensamento. Arrisca desconstruir as técnicas da ginástica em busca de outros sentidos de comunicação, mas reconhece que para a desconstrução é necessária a base; é necessária a técnica; é necessário um chão. O chão para impulsionar os pés; o chão para acolher as mãos, e se Acrobacia é a consciência do equilíbrio e do desequilíbrio, neste sentido, somos todos acrobatas pela vida em busca da base; seja ela ar, seja ela chão...Seja ela! Ela é algo como dança, “contato-improvisação”. Plena relação, jogo entre os pesos. Dar um salto mortal é um desafio tal qual o desafio de aprender a andar, pois ficar em pé é uma expressão acrobática exigente. Representa a realização de poder pessoal por “se ver fazendo o improvável.” Desafio que não acaba. E se buscamos estabilidade e até um grau de imobilidade, a Acrobacia é sair da zona de conforto e a possibilidade de testar os limites, inclusive a força da gravidade.  É “onde eu posso me jogar”. Acrobacia é um lugar… Seja ele!



“[...] a ‘vida’ consiste em experiência extrema e séria; sua técnica - ou pelo menos parte - exigindo o consciente alijamento, o despojamento, de tudo o que obstrui o crescer da alma, o que a atulha e soterra? Depois, o ‘salto mortale’... - digo-o, do jeito, não porque os acrobatas italianos o aviventaram, mas por precisarem de toque e timbre novos as comuns expressões. amortecidas… E o julgamento-problema, podendo sobrevir com a simples pergunta: - ‘Você chegou a existir?’”( João Guimarães Rosa)




                                                    
                                                                                               Luis Carlos Rodrigues dos Santos



A SUPOSTA AMEAÇA