quarta-feira, 22 de outubro de 2025

A SUPOSTA AMEAÇA


Duas quadras atrás, confirmei que estava sendo seguido. Não alterei o passo nem busquei uma rota de fuga, simplesmente mantive o meu caminho e o meu ritmo. Antes de sair de casa, tive o já habitual, e estúpido, pressentimento de que algo importante aconteceria. A esperança dos desesperados é achar que algo bom vai acontecer no novo dia. Só não desconfiava de que a minha sorte fosse justamente sofrer uma perseguição velada. Meu dia começou com uma suposta ameaça, e eu sabia que não havia como fugir.

Mais uma quadra se passou e eu continuo sendo seguido. Penso que o pressentimento que tive antes de sair de casa esteja relacionado ao sonho que tive naquela noite. Nele, eu andava sobre um muro muito alto; ao olhar para os lados, via lá embaixo as copas de muitas árvores - uma floresta vista de cima. Caminhava com uma segurança irreal para quem tem pavor de altura. À minha frente, ao longe, uma figura também caminhava sobre o muro. Certa vez ouvi dizer que os significados dos sonhos não estão nos acontecimentos ou nas imagens, mas nos sentimentos que neles expressamos.

A cada passo que eu dava no muro, a tranquilidade se transformava em medo de me defrontar com a figura que avançava na minha direção. O encontro, eu sabia, traria a ambos a dificuldade de continuar por aquele caminho. Cada passo se tornava angústia, ansiedade - e lá embaixo já não havia mais nada, apenas um penhasco branco dos dois lados. No entanto, por mais que eu andasse, a distância entre mim e a figura distante permanecia a mesma, e, de certa forma, infinita.

E mais uma quadra e quase me acostumei com o meu perseguidor. Faço esse caminho todas as manhãs, ele já faz parte do meu hábito. Se me deixo levar pelos pensamentos, como pela lembrança do sonho, entro em um estado automático e simplesmente ando. Ando e penso, não reparo em mais nada além das imagens do meu interior. Tanto que a ameaça que me segue deixou de me assombrar por alguns segundos.

O que me assombra agora é o que tenho que fazer no dia de hoje, e muitos foram os acontecimentos que me levaram a ter que me confrontar com essa tarefa - a maioria deles resultado de algo que eu propositalmente não fiz. De tantas e tantas vezes que propositalmente não fiz algo, a que mais importa é a que fiz por último.

Ontem pela manhã, quase no mesmo horário em que agora sou seguido, eu seguia alguém. Não me orgulho disso, de seguir alguém, mas eu seguia uma pessoa que se parecia muito comigo. Há muitos anos trabalho em uma loja de materiais de construção, e, em todo esse tempo, passo por esse mesmo caminho, atravessando essas sete quadras. Praticamente conheço todas as pessoas que cruzam essas ruas, até que vi a pessoa que se parece comigo, que tem o mesmo jeito de andar que eu. Ao entrar na grande avenida, antes mesmo de atravessar a primeira quadra, encontrei-a diante de mim, e era como se eu fosse a sua sombra.

Antes da loja de materiais de construção, antes do final da sétima quadra, há uma pracinha com praticamente uma única árvore e um único banco. Segui a pessoa até esse ponto, quando ela sentou-se no banco e ficou olhando para o chão com muita seriedade. Diminui um pouco o meu ritmo e, a alguns passos de me aproximar, ela subitamente levantou o rosto, olhou para mim e ficou me encarando até eu realmente passar por ela.

Apesar de se parecer bastante comigo, seu rosto e especialmente o olhar eram diferentes do meu. Estranhamente, talvez pela distância, eu não conseguia enxergar muito bem suas feições em detalhes; parecia que, quanto mais perto eu chegava, mais difícil era reconhecer e fixar algum traço. Cada passo que eu dava em sua direção era como se o rosto se transformasse. A pessoa que eu perseguia, em um gesto leve e silencioso, me convidou para sentar ao seu lado. Passei pela sua frente, encarando aquele rosto que não parava de mudar, mas que, sob todas as formas, me era estranhamente familiar.

Acelerei o passo e passei quase correndo. Propositalmente neguei-lhe o convite e evitei cruzar olhares, ignorei a sua perturbadora presença. Segui mais alguns passos sem hesitar, ainda que sentisse o efêmero peso do seu olhar me acompanhando enquanto eu ia embora.

Aproximadamente cem metros sem olhar para trás, e cheguei à loja de materiais de construção. Alguns colegas de trabalho já estavam ali e iniciamos o expediente. Duvido que alguém tenha desconfiado de qualquer comportamento estranho da minha parte, mesmo eu estando confuso e intrigado com o encontro anterior.

O dia passou sem grandes novidades, até que o último cliente entrou na loja minutos antes de fecharmos. Fui atendê-lo e, para o meu espanto, ele se parecia com o meu pai quando o vi pela última vez, exceto por alguns detalhes muito sutis, como o jeito de mover a boca ao falar “tijolo” ou “quantidade”, e pela aparência jovem. Faz trinta anos que não vejo o meu pai, e aquele homem era, sem dúvida nenhuma, outra pessoa.

“Preciso de uma quantidade grande de tijolos para a construção de um muro de cinquenta metros de comprimento por três de altura. Vocês conseguem entregar esse material amanhã, antes do meio-dia? Estão assaltando as casas do meu bairro e quero fazer um muro bem alto.”

Perguntei se já haviam entrado ladrões em sua casa. Ele respondeu que não. Perguntei então quantas casas haviam sido roubadas no bairro, e ele disse que, teoricamente, nenhuma, apenas uma prevenção para a crescente ameaça dos tempos atuais. Compreendi a preocupação daquele homem; afinal, são tempos difíceis, e não podemos, como diria meu pai, baixar a guarda.

Aliás, estou agora passando pelo banco da pequena praça e ainda sei que estou sendo seguido. Preciso chegar à loja para despachar o material para o muro do meu cliente, porém decidi encarar o meu perseguidor, assim como ontem a pessoa que eu perseguia fez. Sentei no banco e fiquei esperando o confronto, uma troca de olhares.

A pessoa diminuiu o passo e lentamente se aproximou de onde eu estava. Não consegui reconhecê-la de imediato, ainda assim tenho a leve sensação de já a conhecer. Ela se aproxima mais e subitamente me encara, mas rapidamente desvia o olhar e praticamente sai correndo. Mesmo sendo por um instante, consegui ver as suas feições: o meu perseguidor tinha o meu rosto, a não ser por um detalhe. Seus olhos tinham cores diferentes um do outro, um azul e outro amarelo.

Vendo-o ir embora, fico alguns segundos assimilando a estranha coincidência. Exceto por aqueles olhos tão diferentes dos meus olhos castanhos, ele era quase eu. Meus olhos castanhos... Tiro o celular do bolso e me vejo na câmera frontal. Analiso com mais cuidado os meus traços — a testa, as sobrancelhas, o nariz e a boca - e, por fim, me encaro nos olhos. E finalmente a suposta ameaça se revela: eu ainda estou aqui e não sei nomeá-la.



Luiz Carlos Rodrigues dos Santos


sábado, 16 de agosto de 2025

O VENDEDOR



Recentemente consegui um emprego em uma loja de sapatos, um emprego temporario. Sempre achei que a vida nos conduz por caminhos estranhos e confio na máxima de que nada é por acaso, mas como medir a dimensão disto?


Desde que comecei a trabalhar nesta loja, ou melhor desde que comecei a trabalhar com sapatos, minha vida sofreu uma mudança. Talvez seja óbvio que assumir novas funções e novos ambientes sempre gera mudanças, mas neste caso o que mudou está muito além de mudanças casuais, tudo mudou em apenas um dia, tudo mudou em par de sapatos. Na terceira semana de trabalho, eu já estava bem habituado à rotina da loja, atendia os clientes e efetuava vendas com competência, até que numa quinta-feira aconteceu tudo aquilo. 


Como qualquer dia importante, este começou sem grandes emoções ou novidades, sai no mesmo horário, peguei o mesmo ônibus com o mesmo motorista e o mesmo cobrador, cheguei ao shopping, cumprimentei os seguranças, cheguei na loja, vesti meu uniforme, ajeitei algumas prateleiras e assumi meu posto em frente as vitrines. Faltando uma hora para o meu horário de almoço, entrou na loja uma mulher aparentemente comum, confesso que à primeira vista não reparei muito na sua beleza. Ela estava muito serena e com educação disse que estava procurando um sapato para uma ocasião especial. Depois de dar uma olhada nas vitrines e prateleiras, ela pediu o modelo de seu agrado. Pediu o número trinta e seis.


Fui ao estoque e peguei o sapato, e quando conduzi a mulher para a área onde se prova os calçados, percebi que todos os outros vendedores tinham saído para almoçar e me vi completamente a sós ela, além de nós dois só estava na loja a moça do caixa que ficava em outro ambiente onde não era possível nos ver. Ela sentou em dos bancos e eu me ajoelhei para calça-la, ela tirou a sandália oferecendo o pé apoiando-o em meu joelho, estranhei essa atitude, levantei a cabeça e olhei com espanto pra ela, que sem perder a serenidade sorriu. Sereno sorriso numa boca fina com um batom vermelho, e na caixa de sapatos uma sandália de gala vermelha.


Depois que abri a caixa algo passou a me afetar intensamente, fosse o pé nu em minha coxa, fosse o vermelho da boca e da sandália...tudo isso uma bela composição do acaso. Quando toquei o pé dela, deixei bem evidente o movimento dos meus dedos, deixei a sola do pé dela repousando-o na palma da minha mão, devagar e com segurança deslizei a minha mão numa espiral até seu tornozelo. O suspiro que rompeu a casca da serenidade, e o arrepio ao calçar a sandália, provocaram uma reação violenta de excitação no meu corpo. Com a mesma lentidão e segurança que eu havia impresso no meu toque, a sandália vermelha foi conduzida da minha coxa até o meu pau, fechei os olhos sem que a imagem da sandália e do sorriso fossem apagados da minha visão. Enquanto ela com movimentos precisos e seguros pressionava meu desespero em tesão, eu apertava sua perna na tentativa de dar vazão ao tesão desesperado que tomava meu corpo.


Ficamos assim por muito pouco tempo, pois chegaram do almoço os outros vendedores. Mais uma vez com serenidade ela sorriu, pagou a sandália e foi embora… Parece bobagem ou muito pouco para eu dizer que essa experiência mudou tanto minha vida. Mas pouco depois desse episódio, numa quarta-feira eu fui mandado embora da loja, demitido por justa causa.


Havia esperma em todas as sandálias vermelhas, e uma maldita câmera no estoque.


quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

O QUEBRA-CABEÇA





Procurou em diversas lojas até encontrar e comprar o maldito quebra-cabeças. Era um jogo com mil peças, com um desenho que, ao meu ver, não tinha nada demais… Que importância tinha eu para gostar ou não gostar daquele desenho? Afinal, não iria me debruçar por muito tempo sobre aquele colorido de mil pecinhas. Era uma vontade que não me pertencia. Porém, demorei para perceber que de fato aquela não era tarefa minha. 


Noites e noites, eu acompanhava o seu empenho em montar peça por peça. Algumas vezes, eu palpitava por querer participar. Às vezes eram palpites precisos, mas tantas e tantas vezes eram perfeitas imprecisões da minha visão. Eu nunca toquei em nenhuma peça, só me cabia ver e observar aquele amontoado. De tanto me acostumar a somente ver e observar, eu ignorei a presença do quadro inacabado que ocupava a minha sala.


Um ano se passou desde que o jogo entrou em casa e a cada peça, a sincera promessa de finalização, mas a cada encaixe novos buracos apareciam. A incompletude sobre a mesa de centro foi o retrato da sua presença naquele ano. Entendi, assimilei aquilo como um hábito seu. Respeitei, mas deixei de torcer pela conclusão. Um ano se passou e começamos a nos desencontrar pela casa. O dia começava e terminava com a sua presença que durante o dia variava de precisão.


Outro ano se passou e de repente, por progresso do seu esforço, o quebra-cabeça parecia ir em vias de se completar. Neste ano nunca vi um sorriso seu ou ouvi a expressão de alguma alegria. Outros meses se passaram e sua expressão foi se tornando mais embrutecida. Três anos se passaram desde que o quebra-cabeça se instalou aqui. Depois de tanto tempo, resolvi olhar para a mesa de centro. Para minha surpresa, faltava apenas uma peça. Que, por sinal, não estava ali - onde antes havia um amontoado de peças. 


Tínhamos o velho hábito de dormir e acordar juntos, ainda que sob o mesmo teto não convivíamos e nem conversávamos mais, até que em uma certa manhã você foi embora, sem dizer para onde iria, deixando para trás a nossa casa e o empoeirado quebra-cabeça incompleto, em uma pequena mesa no canto da sala. 


Hoje mais cedo, depois de tanto tempo desde que você foi embora, resolvi mudar os estáticos móveis de lugar, mudei tudo até ficar bem diferente. Deixei o quebra-cabeça por último na arrumação. Quase não era possível ver o estranho desenho, que até então para mim não fazia pouco sentido e que quase não me tocava, não tanto quanto a falta. Depois de refletir sobre o que eu faria com aquilo, emoldurei o quebra-cabeça exatamente como você deixou e o pendurei na cabeceira da minha cama. 


Agora, depois de décadas da sua ausência, você reaparece. Abre a porta e me assusta, não fala comigo e não olha pra mim. Abre o meu armário e explora todas as gavetas, desarruma todos os meus cabides, até encontrar um casaco que eu tinha tido como perdido, do bolso esquerdo tira a peça que faltava para completar o jogo. Agora, você pega a minha mão e me olha nos olhos... Quero completar o quadro com você e contemplar o desenho? Enquanto andamos pela casa, ela volta a ser como era antes de você partir e o meu coração se enche de alegria novamente.


Agora, exatamente neste momento, colocamos a última peça no quebra-cabeças. Finalmente compreendo a sua imagem, reconheço o seu desenho… Ele sou eu, ele é você, ele somos nós aqui. Sempre foi! Pelo menos deste que este maldito quebra-cabeça entrou em nossa morada.



Luis Carlos Rodrigues dos Santos 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

O LÍRIO DA PAZ MORREU…

 


O lírio da paz morreu no vaso que você me deu. Eu coloquei água todos os dias, eu cuidei para que recebesse luz, mas mesmo assim ele morreu. Notei uma pequena mancha marrom em uma das suas três flores brancas, dois dias depois havia uma mancha em cada uma das suas flores. Algum fogo invisível, lentamente, consumiu as pétalas e elas ficaram completamente murchas no terceiro dia… Eu observei todo o processo sem poder intervir, ficava horas e horas com o olhar fixo para a planta e sem entender nada, via nada acontecer. Porém, bastava um minuto de distração ou algumas horas para as rotinas diárias, que algo se modificava. Assim como a vida: a morte não gosta de ser vista, mas ela deixa alguns rastros.  




Luis Carlos Rodrigues dos Santos


terça-feira, 26 de setembro de 2023

E ONDE SERÁ O AFTER?



Tim Maia é o piloto da nave e todos cantam juntos: “We are gonna rule the world. Don't you know, don't you know. We are gonna rule the world. Don't you know, don't you know. We're gonna put it together”. As luzes da nave são muito brilhantes, não mais brilhantes do que as luzes das galáxias passando rápido pelo vidro. Alguns passageiros não entendiam muito bem a mensagem do capitão, mesmo assim cantavam, mesmo assim dançavam entre as estrelas. Na tela do painel de controle um alfabeto estranho não continha traços e composto apenas por imagens disformes e luminosas, indicavam algum perigo iminente, ainda sim a nave seguia em alta velocidade. Perigo, era justamente o som parar de uma vez e o silêncio do espaço se sobrepor ao tempo sincopado dos corações envolvidos naquela viagem.


Eu era um dos tripulantes e minha percepção não conta muito. Não conta tudo, pois outras pessoas tripulantes tiveram percepções diferentes da viagem, afinal as paisagens eram completamente transformadas a cada segundo, cumpriam ciclos inteiros num lapso, qualquer apreciação era efêmera e plenamente individual. Se você, por um acaso for alguém que participou dessa viagem, complete esse meu relato com suas próprias paisagens e seus próprios sons, me complete com sua experiência. Agora, se você nunca esteve em uma nave: Boa viagem!


Era uma vez um reino muito distante. Lá havia uma cidade e uma floresta. Havia também uma montanha bem alta que era o ponto central. A cidade como um anel vestia a montanha e a floresta como um grande colar adornava de verde a cidade. Harmonia geométrica, estampa de tapete, estampa de tecido que cobre um corpo nu. No alto da montanha havia uma ave solitária, um gavião que contempla os círculos enquanto descansa depois de um longo voo noturno. Na floresta, os animais viviam suas vidas particulares e coletivas. O urso e a rã eram amigos, assim como o ornitorrinco roxo era camarada do gato laranja. Isso, do alto, a ave podia ver na floresta. Já na cidade, os habitantes estavam insatisfeitos com suas diferenças, mas isso não era visível, nem mesmo para o gavião no alto da montanha. 


Anos-luz dali, também existe um reino, este porém, é uma comunidade de seres imortais que vivem em um lugar chamado “Entre”. Poderíamos chamá-los de Deuses? Talvez. Pois, esses seres não têm forma nem idade. Poderíamos chamá-los de Humanos? Talvez. Pois, esses seres dançam e sorriem, cantam e choram. No Entre vivem. Entre o passado e futuro, entre o dentro e o fora. No Entre.


Na cidade de São Paulo em 2023, sexta-feira à noite, as ruas estão cheias de brilho e de lixo. Trânsito nas marginais, sirenes no centro e sangue nas periferias. Alguém que só corre pelo certo e que só quer se divertir no final de semana, segue na caminhada de volta para a casa depois de uma semana de trabalho com a expectativa de um rolê infinito. A Estação da Luz, às 19h é tanta gente, são tantas travessias e tantos pensamentos confinados nos passos apressados da multidão. Entre tanta gente, os passos e os pensamentos de alguém que só corre pelo certo, essa noite irão atravessar. “Essa noite um portal foi aberto.” Foi o que ela disse depois da AfroJam. Enfim… Isso foi bem mais tarde. Sobre o meio, sobre o que aconteceu entre esses acontecimentos, uma coisa deve ser dita: o trajeto para a casa depois do trabalho não tem nada de interessante aqui neste relato panorâmico. Sabe-se que a pessoa que corre pelo certo seguiu o fluxo entediante da cidade alucinada e chegou em casa com uma paz terrível e uma vontade raivosa. Relaxar um pouco antes de ir para o rolê, tomar um banho e uma cerveja. Na geladeira a última latinha do último after. No fim, tomou o desejado banho quente ao mesmo tempo que se banhava com a cerveja gelada esquecida. Assim firmou-se o início.


Antes de pousar no alto da montanha, o gavião havia voado por muitas horas. Na verdade, ele atravessou a noite adentro. Mas antes de levantar voo o gavião foi atingido por uma pedra que foi lançada no início dos tempos por um deus ancestral. A pedra certeira, mais o assustou do que o feriu. Ele levantou voo ligeiro e não parou de voar até cruzar o medo da cegueira. Cegueira que a vasta noite não o deixava esquecer. O medo de não ver era maior do que o medo da noite. Voou muito até que o dia nasceu e ele enxergou novamente, só então pôde pousar tranquilo naquela montanha. Curiosamente, a montanha estava lá desde o início da viagem do gavião. No seu voo cego, o pássaro já a orbitava e era a escuridão o impedia de vê-la, e nem perceber que a própria noite era na verdade uma espiral ascendente que ia do chão até o cume da montanha. O gavião era um dos animais da floresta e ele quase não se lembrava disso, tinha como característica da sua espécie uma espécie de solidão escura. 


Tim Maia desvia dos asteróides, contorna nebulosas e atravessa buracos negros. A nova colônia dessa vez será diferente, os sobreviventes da civilização colapsada, do que a tempos atrás foi chamada de Humanidade, são justamente os que não tiveram sua História contada, são os que não foram humanizados. O planeta Terra foi devastado e passaram mais de mil anos desde que os habitantes do Entre mandaram a primeira mensagem: “Apenas um.. Apenas um contato, irá fazer nossa união legal.” 


Os que moram no Entre, são os Infinitos. Existências de muita autonomia. Ainda sim, os limites entre o ser e o não ser dessas criaturas, são muito sutis e instáveis. Por isso, qualquer narrativa sobre os Infinitos é sempre uma missão arriscada para qualquer traço e para a escrita desta história, será necessária tal empreitada. No Entre não há tempo e tudo é uma presente-presença. Suas ações são transdimensionais e suas motivações são paisagens inteiras.


A cidade e a floresta são paisagens inteiras e completamente diferentes, elas coexistem, porém em tempos diferentes. Na cidade de São Paulo em 2023, sexta-feira à noite, as ruas estão cheias de brilho e de lixo. Trânsito nas marginais, sirenes no centro e sangue nas periferias. Alguém que só corre pelo certo, só quer se divertir e enquanto isso o gavião no alto via tudo. Nitidamente a floresta no pé da montanha e a cidade bem mais além, que para ele era uma distorção da visão. Na floresta, o urso e a rã, o ornitorrinco roxo e o gato laranja, se perguntavam: “Nós temos tudo aqui! O que o gavião foi fazer no alto da montanha?”


Sexta-feira, 2023. A noite está quente e não deve ser desperdiçada. Alguém que segue em direção aos encontros, está agora na estação da Sé. Acima uma cruz, um marco zero grafado na praça. As linhas azul e vermelha do metrô,  além e bem fundo no chão, formam outra cruz. Ali, nos entrecruzamentos, alguém que só corre pelo certo é ponto central que segue seu caminho para o centro da cidade e também para o centro da noite. Nos fones de ouvido um puta som. Enquanto isso no Entre uma das existências procura algo no fundo do seu ser ou não ser, algo que podemos comparar com uma bolsa, aproximação puramente narrativa. O gesto deste ser Infinito expressa uma vontade coletiva transdimensional.


Tim Maia no comando da nave não tem dimensão da importância da sua missão, ele apenas mantém o beat da viagem e desvia de asteroides e de galáxias em colisão. O painel de controle tem teclas brilhantes que mudam de cor diante dos corpos celestes. Um belo teclado de sete oitavas de possibilidades conduz todos os movimentos da nave. “Mas lendo atingi o bom-senso, a imunização.” 


Que teclado é esse? Ele me derrete e me atiça! Sonzera. 


Em frente ao local do baile, uma placa luminosa escrito AfroJam. Tira os fones de ouvido e outro som invade o seu corpo. A pista está formada em tons vermelhos, repleta de perfumes, é um atrator do caos. O som é forte e tem um sampler de um som do Tim Maia Racional. Coincidência, é o que ouvimos durante a viagem toda, é o que ouvimos agora também, você e eu. Alguém que só quer se divertir, na pista de dança fecha os olhos para ver outras luzes, tão intensas quanto as que presenciamos enquanto estávamos na nave.


O gavião incomodado com a distorção da visão que a cidade distante lhe impunha, decidiu iniciar outro voo, desta vez motivado por vontade própria e não fugindo de uma pedra vindo sei lá de onde. Ele atravessaria a floresta na nova noite, agora uma reta em direção ao coração da cidade. Ele deu um salto e abriu suas asas no momento exato que o sol se pôs. O urso e a rã, o ornitorrinco roxo e o gato laranja, olharam para cima e já não viam mais nada, nem a montanha e nem o gavião.


O calor é intenso na pista de dança. Resolve dar um pausa e sair um pouco para tomar um ar. Lá fora, algumas pessoas amigas estão trocando ideias sobre as correrias e as paixões da vida. Encosta e colabora com a ideia. Por um lapso, olha para cima e contempla a noite de lua nova e suas poucas estrelas. Nota algo diferente, um brilho intenso risca o céu e alguém lhe chama a atenção, bate no seu ombro e estende a mão oferecendo um pedacinho de papel, alguém que só quer se divertir, colocou o papel na língua e voltou para dentro do baile enquanto uma banda formada ali começava a tocar um groove de improviso, de relance alguém pergunta: “E onde será o after?” 


Isso aconteceu a muitos anos atrás e eu também estava nesse baile, ouvi a pergunta e também vi um risco no céu. Isso foi antes da mensagem e da grande explosão. Em 2023 o mundo e a humanidade tal como conheciamos acabou. Naquela época as pessoas já tinham uma noção de que o sistema global entraria em colapso, seja ele de ordem climática ou proveniente de movimentos de guerra entre as nações. No entanto, o final do mundo ocorreu por um motivo inesperado, uma pedra muito grande vindo sei lá de onde atingiu o planeta. 


No Entre uma das existências procura algo no fundo do seu ser ou não ser. Para seu próprio espanto um fato inédito aconteceu ali cuja a monotonia do eterno se sobressai, uma parte do seu ser ou não ser se materializou. Uma vontade transdimensional forte o suficiente, foi capaz de mineralizar parte da alma de um dos Infinitos. A existência retirou de dentro da bolsa uma pedra rude. O pedregulho feio e poroso, escapou da posse do ser sem forma do Entre e foi lançado no espaço. Por não haver tempo naquele lugar, a rocha seguiu, ao mesmo tempo, em diversas direções opostas, seguindo para os supostos limites do Entre: O lá e o ali. 


Ao romper a barreira do lá, a rocha se transformou em uma pequena pedra e caiu na floresta onde viviam o urso e a rã, o ornitorrinco roxo e o gato laranja. Na floresta, onde, distraidamente, no chão estava o gavião refletindo sobre a sua vida alada, poucas vezes ele se atrevia a ficar no solo próximo às raízes. Mas o seu pensamento estava no mais profundo estado melancólico, o gavião duvidava da sua existência e questionava a sua capacidade de visão e de voar, ele parou e pela primeira vez deitou no chão e quis ouvir o coração da terra, pois no céu havia  somente uma respiração pura, um fluxo de ar sem sangue e calor. Quando o gavião ouviu o reflexo do seu próprio coração no som do coração da terra, a pedrinha caiu e o assustou, motivou o seu primeiro voo noturno.


Ao romper a barreira do ali, a rocha se transformou em um enorme meteoro que caiu sobre a cidade de São Paulo na madrugada de sábado em 2023. Alguém que só corre pelo certo e só quis se divertir, presenciou o momento em que a nave do Tim Maia posou em frente a AfroJam e resgatou todos que estavam naquele rolê. Enquanto tudo explodia, a viagem começava e agora é também uma tripulante aqui. 


“Essa noite um portal foi aberto”. Foi o que ela me disse antes de entrarmos na nave. No Entre as existências infinitas vivem num único ponto, são conscientes e alheias a tudo que eu contei nesta história. O Tim Maia ainda pilota a nave sem conhecer a sua missão e mantém o som, nós estamos a salvo deitados no tapete da casa de alguém que também só corre pelo certo. O After está no Agora, mas somente para quem recebeu a mensagem contida naqueles papéis. É noite longa… O gavião ainda está voando em direção a cidade distorcida que nunca chega, que derrete enquanto explode diante dos olhos. 



Luis Carlos Rodrigues dos Santos

sábado, 18 de fevereiro de 2023

O LAGO: A PEDRA E O INSETO; O VENTO E O PEIXE





Em um lago, a superfície se mantém parada até que alguma perturbação lhe cause agitação. Uma pedra ou um inseto, por menores que sejam, são suficientes para transformar a aparente tranquilidade. O vento, ainda que invisível e complicado de pesar, implica em diversas danças, infinitas mudanças. O peixe por sua vez, diferente dos agentes externos às profundezas, é a expressão viva da vontade que pulsa de dentro do próprio lago. Nessa história eu serei a pedra e o inseto, serei também, o vento e o peixe, mas principalmente eu serei o lago, pois eu sou, assim como você, a superfície e a profundeza.


Hoje na escola em que trabalho, uma criança jogou uma pedra em outra criança, a ferida no olho esquerdo impressionou a todos que estavam no pátio na hora do acidente. O sangue escorrendo como lágrimas, de fato misturado com as lágrimas, dava a impressão de que a dor que a criança sentia mudaria a partir daquele instante todos os seus pontos de vista. Algumas crianças e até algumas professoras diziam: "Ela vai ficar cega!” Minutos antes, fui até o banheiro da sala dos professores. Não necessariamente motivado por necessidades fisiológicas, ainda que habitasse em mim dores abdominais, havia sim a necessidade latente de receber uma mensagem. Me isolei para olhar o celular e confirmar minha ansiedade. Olhei a mensagem dela que dizia: “Combinado! Estarei lá.”  


Mais tarde ao chegar em casa me deparei com um gafanhoto na maçaneta da porta da frente. Para minha maior surpresa, as plantas nos fundos da casa estavam todas mortas. Seria sorte ou bom presságio? Certamente não para as plantas, pois para elas, da minha perspectiva sombria, o inseto verde significa apenas morte. Mas quem sou eu para dar significados a gafanhotos ou a plantas… ou a morte? Da minha perspectiva só pode haver vida e êxtase, afinal hoje à noite estaremos juntos pela primeira vez. A saia que ela vestiria seria verde como era verde o meu quintal antes daquele inseto?.. Como era verde o vestido que ela vestiu no nosso eterno e primeiro beijo! Como é verde: o gafanhoto e sua comida.   


Não me importei completamente nem com a criança e nem com as plantas, mas traços de vermelho e verde ficaram estampados em todos os meus gestos. Não me importei, não por falta de sensibilidade e cuidado, mas por uma tendência aérea presente em minha personalidade que é por vezes racional e volátil. 


Os ventos, as grandes massas aéreas são por excelência consequências da rotação da Terra e se estamos todos girando sem perceber, os ventos nos lembram que somos movimento até quando estamos parados, até quando estamos imunes às constantes brisas do giro. Ao sair de casa e a cada passo àquele encontro, era como se todo planeta me tocasse o rosto, como se fossem somente os meus passos apressados a força que impulsiona o globo. Sendo eu uma nuvem poderia deslizar sem pensar no olho da criança ou na morte das plantas. Não pensei em mais nada e a face lisa do lago se revelou além e bem mais além das expectativas e das memórias, das saudades e das preocupações. Não havia vento e não havia inseto, não havia uma pequena pedra sequer. Apenas uma paisagem estática que se movia em direção a ela, àquela que por mensagem já havia confirmado sua presença. 


Hoje na escola em que trabalho, uma criança jogou uma pedra em outra criança e não foi por maldade de pontaria. A mira espontânea emergiu de um lançamento inocente e que depois daquele instante-incidente perdeu espontaneidade e ganhou precisão. A criança cresceu um pouco mais depois que a pedra saiu de sua mão? A pedra ainda está no ar… E a outra criança não ficou cega. Será que ela também cresceu um pouco mais naquele dia, ainda que às custas de sangue e de lágrimas? 


Quando eu vim morar nesta casa, as plantas já estavam aqui, não plantei nem uma planta naquele quintal, contudo observei o nascimento de cada folha, que da noite para o dia brotavam em espirais. Agora, carrego comigo o inseto para me lembrar que a morte é um ser vivo sem ossos, que a sorte tem um corpo geométrico e as pernas finas. Carrego comigo um gafanhoto faminto nos bolsos. 


Depois de eu a ter encontrado e depois de nos amarmos sobre a sua roupa verde, dormi em seus braços e sonhei outra vez com o peixe, - desta vez ele não estava no aquário. Nós dois nus refletidos no espelho do teto, ali mergulhei nela e na imagem do animal. Pela janela aberta, uma brisa suave, o próprio movimento da Terra, invadia a região oleosa. Desta vez o peixe habita uma folha em branco. Entre a face lisa do lago e a lama pastosa do fundo, o peixe flutua suavemente no meio do caminho. 


Quando voltei para casa, minhas roupas estavam todas espalhadas pela rua e minha chave já não abria a porta da frente. Recolhi minhas roupas, lancei minha chave no espaço e caminhei até meus pés se dissolverem no asfalto. Quando acabou o asfalto, estava completamente perdido e sem bases.  A estrada ficou estreita e cercada por novas plantas que desde o início dos tempos cresciam plenamente verticais. No final desta vereda eu encontrei o lago que sempre esteve lá. Mais uma vez me despi e desta vez sem amor ou ansiedade. Tirei o gafanhoto do meu bolso e abracei a pedra que continuava no ar e só depois entrei no lago. Em mim submergi e nunca mais voltei à superfície e as brisas do giro, ainda sim, eu sou a pedra e o inseto, sou o vento e o peixe. 


Sou inteiramente um lago que espera sereno algum mergulho.




Luis Carlos Rodrigues dos Santos


sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

CRÔNICAS PARA UMA EXPERIÊNCIA MAIOR : Histórias curtas de alteridades e de longos reconhecimentos.

 

                                                               

                        "Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu.
                          Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil.
                          Minha experiência maior seria ser o outros dos outros.
                          E o outro dos outros era eu." (Clarice Lispector)


1.De dentro do carro, confortavelmente com os seus pais, a criança encara outra criança que está sozinha lá fora e que chora com as mão estendidas pedindo esmola. A criança no conforto do carro que agora vai embora, chora uma dor que não é sua, mas que daquele instante em diante lhe pertence. 


2.O homem anda com passos rápidos e secos em direção ao mercado. Preocupado com o preço do pão ele anda rápido por fora e seco por dentro, mas existe outro incômodo que não é o preço do arroz e nem do feijão, não é também o preço da luz! Não… O preço de tudo não o incomoda mais e o mercado está longe, muito longe. E alguém que até agora não foi notado, outro homem na outra calçada da avenida, também caminha. Ele caminha descalço e semi-nu com apenas um cobertor entre os ombros. Os dois homens caminham juntos em uníssono os mesmos passos, rápidos e secos. Avançando a mesma perna e depois a outra, ambas no mesmo ritmo. Entre eles existe uma grande avenida; apenas um deles está calçado.


3.“Aqui não tem nada que me interessa.” Disse o adolescente ao professor que naquela mesma manhã leu no poema do Mário Quintana que: “Todos os jardins deviam ser fechados, com altos muros de um cinza muito pálido, onde uma fonte pudesse cantar sozinha entre o vermelho dos cravos. O que mata um jardim não é mesmo alguma ausência nem o abandono… O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem por eles passa indiferente.” Professor e aluno notaram-se em silêncio e olharam-se com olhos grandes e profundos capazes de ver até a fonte. “Não. As pessoas… As pessoas me interessam professor." Concluiu o adolescente que refletido no sorriso oculto do professor, como um jardim, tinha sido visto. 




Luis Carlos Rodrigues dos Santos


A SUPOSTA AMEAÇA