No dia em que cai fazendo um salto mortal; segui o calculado, corri certeiro, virei estrela; bati o pé, chamei no rodante e me joguei... Suspenso no ar. Mirei o relógio na parede, dado o giro do salto vi ponteiros de ponta cabeça. Ao me lançar, mergulhei no anti-tempo e de encantamento perdi a concentração, caí na real ao mesmo tempo em que voei. E não foi a única vez. “- Aqui é a sua sala.” Obrigado. Uma mesa, duas cadeiras, dois metros quadrados num quadrado de sala. Cinza. Parede lateral de vidro, daqui dá pra ver quem passa no corredor e quem passa no corredor pode ver aqui, isso pode ser ruim. Que calor! “- Você pode convidá-los no refeitório na hora do almoço, daqui a…” Olha o relógio no pulso. Não vai dar tempo de comer.
Quando eu vim pra cá para o Rio eu achei que iria fazer o curso básico e voltar. O triplo mortal saiu hoje, quase que caí, mas saiu. Ainda está ruim. Ficar mais concentrado no tempo, no giro. Eu ainda lembro a primeira vez que eu caí fazendo um salto mortal; eu segui o calculado, eu corri certeiro, eu virei estrela; eu bati o pé, eu chamei no rodante e me joguei... Olha o relógio na parede. O cheiro tá demais. Será que esse ano sai? Será que eu volto? Que fome! Melhor ir logo. Eu quero almoçar sozinho, não quero conversar; eu quero comer em paz, pensar no giro e na volta.
Olhando daqui realmente essa parede transparente pode ser um fator complicador; exposto, variável que não havia considerado. Não imaginava ser tão rápido, estou preparado? É a primeira vez que me lanço. Basta seguir o calculado. Investigar é isso; impulso e presença. Basta seguir o roteiro. Mas no refeitório? Olá, desculpe interromper o almoço de vocês, sou pesquisador da Universidade de São Paulo e vim pesquisar suas histórias… Será que eles vão querer falar? Coletar dados. Desce a escada, olha o relógio na parede. Vejo algumas pessoas se acomodando no refeitório e outras ainda treinando. Olá, desculpe interromper… sou pesquisador... Estou nervoso. Para no meio da escada, observa o espaço de treino dos artistas-atletas. Um triplo mortal! Triplo mortal! Que giro! Precisa melhorar o tempo. Talento. Gente do Brasil inteiro. Poderia estar aqui também. Duplo mortal. Mergulho no anti-tempo; impulso, Gira-gira e aterrissa. Caí, sobrou giro, faltou presença. Não deu tempo. Não vou falar que sou acróbata, não vou. Não posso me expor, pode enviesar a pesquisa. Parede de vidro. Podia treinar com eles. Quem sabe? ...Não vai dar tempo.
Olhando daqui naquela mesa não tem ninguém. O cheiro está demais, comida simples, deliciosa, comida caseira. Fim de treino. Vai para o refeitório. Eu acho que sem o projeto social eu não estaria aqui hoje. Primeiro que ser artista não é fácil, mas é o que eu amo, pretendo continuar até o dia que meu corpo não aguentar. “- Belo salto mortal, tá girando triple volta!”. Obrigado. Tá faltando giro que eu sei. Não falo. Agradecer e só é melhor para a autoestima. Naquela mesa não tem ninguém. Comer e pensar no giro. Não. Alguém vindo, não vou ficar sozinho. Olha para baixo. Não adianta. “- Triple volta hein! Parabéns. O cheiro está demais né?” Chegou sentando do meu lado. Tá ruim, preciso acertar o giro. Agora já disse. Obrigado. Falar depois também vale, acho que é um mau hábito. Só. No ar estou sozinho eu Giro-giro e giro mais uma vez. Sem chão, tudo gira-gira e gira mais uma vez. Hop! E você abre, aterrissa. Ele dá o tempo certo é mestre nisso. Caí muitas vezes. Hoje saiu, mas quase caí. Tá faltando presença ou tá sobrando impulso? “- Quem é aquela pessoa parada na escada?”
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Obrigado por sua participação, a pesquisa consiste em perguntas abertas sobre as quais você pode responder livremente. Irei gravar o seu discurso e posteriormente transcrevê-los para análise. Dissecação mental e anatomia letral. Objetivo; Talento. Discurso do Sujeito Coletivo. Frankenstein discursivo. A pesquisa será publicada e encaminhada para o seu e-mail. Durante a sua fala eu não vou me pronunciar. Alguma dúvida? “- Não”. Podemos começar? “- Sim”. Liga o gravador.
“-... será ada e encaminhada para o seu’mail. Durante a, não vou me pronunciar. Alguma dúvida?” Não. Será que alguém está me vendo aqui? “- Podemos começar?” Sim. Liga o gravador. O meu começo foi através de um projeto social na minha cidade. Meu irmão passou em frente a uma Escola de circo e lá eu encontrei o Circo. Eu acabei entrando e desde o dia que eu entrei eu nunca mais quis sair. Eu acabei me apaixonando, viram que eu tinha potencial e me convidaram para uma trupe. Participei por um tempo. Cachê era pouco, era pouca profissão era pouca provisão. Formação certificada, contato, auxílio, projeto cultural. Eu vim para a Escola Nacional de Circo. Eu venho de um local onde o circo não é conhecido, não é divulgado. Projetos e lonas de circo são poucos, então no começo era assim: “- Não. Você tem que fazer uma coisa que te dê recurso, que te dê dinheiro". Agora, como eles viram que é isso que eu quero pra mim, eu tenho força de vontade em mim. Estão felizes após notarem o meu desenvolvimento e muito mais felizes por eu sair do meu Estado. Quem sabe eu volto. No começo ninguém acreditava. Eu não venho de família circense, meus familiares se preocupavam com a questão da formação. “- O que você vai ser da vida, sua carreira profissional, o que você vai fazer lá na frente? Até quando você vai ficar brincando disso...?” Mas depois que eles viram tomando rumo como profissão e a própria escola como espaço de formação, eles entenderam que de fato existe a possibilidade. Eu me esforço a cada dia. Treinando e treinando, persistindo. Acho que talento vem da persistência, sua. Talento nasce. E claro que professores ajudam, eles apoiam e olham. Dão o tempo. Hop! Tive muita dificuldade. Sempre buscar. Ser. Realizar o melhor da forma. Realizar o melhor do tempo, do giro. Olhou o relógio? ...Triple volta. Tempo. Suspenso. Impulso. Mortal. Triplo mortal. Queda, quase eu caí. Esse ano eu volto. Caí… Eh... Enfim. Ah! Eu quero ser professor também. Quando voltar. Tracei os meus passos no Circo. Antigamente eu treinava o que eu tinha vontade de aprender. Aqui tem grade. Eu não tinha o planejamento que tenho hoje. Treinávamos assim… Acho que é isso. “- Quer acrescentar algo mais?” Não. Talvez. Eu nem queria falar; parar pra pensar no tempo. Giro-giro e giro mais uma vez. AleeeeHop!
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Que calor! Ciência? Não desconcentrar. Parede de vidro. “- Eu me esforço a cada dia, ando e treinando, psistindo. Q’ talento vem da (Que calor!) ência (Ciência?) sua. Talento nasce”. Talento nasce! Será que alguém está vendo? Linguagem não verbal. Atenção! Mortal. Suspenso no ar. Olha relógio na parede. Que fome! Dado o giro do salto vi ponteiros de ponta cabeça. Tempo. Suspenso. Duplo mortal. Queda. Perdi! Presença? Perdeu. Linguagem não verbal; olhei para o relógio. Que fome! Caímos. “- Eh... Enfim. Ah! Eu quero ser professor também.” Dados corrompidos. Depois o erro se diluí na análise. Junta uma perna com outro tronco, alguns braços e a minha cabeça. Ideia central. Frankenstein discursivo. “- Aqui tem grade.” Tem grade e paredes de vidro. Aqui também. Quer acrescentar algo mais? “- Não.” Obrigado por sua participação. “- Acho que fiquei um pouco nervoso.” Está ótimo. Desliga o gravador.
- Acho que fiquei um pouco nervoso.
- Está ótimo.
Desliga o gravador
- É mais fácil fazer um salto mortal do que falar sobre si.
- Eu também acho. Eu parei no duplo mortal. Não fui além. Não deu tempo.
- Você também é acróbata?
- Sim. Aliás, vi você treinando o triplo mortal. Parabéns belo Giro!
- Obrigado. Amanhã vamos treinar juntos? Eu te ensino o tempo do triplo.
- Obrigado. Eu quero, mas não vai dar tempo.
Luis Carlos Rodrigues dos Santos

