domingo, 14 de março de 2021

PESQUISADOR ACRÓBATA: ACROBATA PESQUISADOR

 


        No dia em que cai fazendo um salto mortal; segui o calculado, corri certeiro, virei estrela; bati o pé, chamei no rodante e me  joguei... Suspenso no ar. Mirei o relógio na parede, dado o giro do salto vi ponteiros de ponta cabeça. Ao me lançar, mergulhei no anti-tempo e de encantamento perdi a concentração, caí na real ao mesmo tempo em que voei. E não foi a única vez.  - Aqui é a sua sala.” Obrigado. Uma mesa, duas cadeiras, dois metros quadrados num quadrado de sala. Cinza. Parede lateral de vidro, daqui dá pra ver quem passa no corredor e quem passa no corredor pode ver aqui, isso pode ser ruim. Que calor! “- Você pode convidá-los no refeitório na hora do almoço, daqui a…” Olha o relógio no pulso. Não vai dar tempo de comer.

        Quando eu vim pra cá para o Rio eu achei que iria fazer o curso básico e voltar. O triplo mortal saiu hoje, quase que caí, mas saiu. Ainda está ruim. Ficar mais concentrado no tempo, no giro. Eu ainda lembro a primeira vez que eu caí fazendo um salto mortal; eu segui o calculado, eu corri certeiro, eu virei estrela; eu bati o pé, eu chamei no rodante e me  joguei... Olha o relógio na parede. O cheiro tá demais. Será que esse ano sai? Será que eu volto? Que fome! Melhor ir logo. Eu quero almoçar sozinho, não quero conversar; eu quero comer em paz, pensar no giro e na volta.

        Olhando daqui realmente essa parede transparente pode ser um fator complicador; exposto, variável que não havia considerado. Não imaginava ser tão rápido, estou preparado? É a primeira vez que me lanço. Basta seguir o calculado. Investigar é isso; impulso e presença. Basta seguir o roteiro. Mas no refeitório? Olá, desculpe interromper o almoço de vocês, sou pesquisador da Universidade de São Paulo e vim pesquisar suas histórias… Será que eles vão querer falar? Coletar dados. Desce a escada, olha o relógio na parede. Vejo algumas pessoas se acomodando no refeitório e outras ainda treinando. Olá, desculpe interromper… sou pesquisador... Estou nervoso. Para no meio da escada, observa o espaço de treino dos artistas-atletas. Um triplo mortal! Triplo mortal! Que giro! Precisa melhorar o tempo. Talento. Gente do Brasil inteiro. Poderia estar aqui também. Duplo mortal. Mergulho no anti-tempo; impulso, Gira-gira e aterrissa. Caí, sobrou giro, faltou presença. Não deu tempo. Não vou falar que sou acróbata, não vou. Não posso me expor, pode enviesar a pesquisa. Parede de vidro. Podia treinar com eles. Quem sabe? ...Não vai dar tempo.  

            Olhando daqui naquela mesa não tem ninguém. O cheiro está demais, comida simples, deliciosa, comida caseira. Fim de treino. Vai para o refeitório. Eu acho que sem o projeto social eu não estaria aqui hoje. Primeiro que ser artista não é fácil, mas é o que eu amo, pretendo continuar até o dia que meu corpo não aguentar. “- Belo salto mortal, tá girando triple volta!”. Obrigado. Tá faltando giro que eu sei. Não falo. Agradecer e só é melhor para a autoestima. Naquela mesa não tem ninguém. Comer e pensar no giro. Não. Alguém vindo,  não vou ficar sozinho. Olha para baixo. Não adianta. “- Triple volta hein! Parabéns. O cheiro está demais né?” Chegou sentando do meu lado. Tá ruim, preciso acertar o giro. Agora já disse. Obrigado. Falar depois também vale, acho que é um mau hábito. Só. No ar estou sozinho eu Giro-giro e giro mais uma vez. Sem chão, tudo gira-gira e gira mais uma vez. Hop! E você abre, aterrissa. Ele dá o tempo certo é mestre nisso. Caí muitas vezes. Hoje saiu, mas quase caí. Tá faltando presença ou tá sobrando impulso? “- Quem é aquela pessoa parada na escada?”

                ...

        Obrigado por sua participação, a pesquisa consiste em perguntas abertas sobre as quais você pode responder livremente. Irei gravar o seu discurso e posteriormente transcrevê-los para análise. Dissecação mental e anatomia letral. Objetivo; Talento. Discurso do Sujeito Coletivo. Frankenstein discursivo. A pesquisa será publicada e encaminhada para o seu e-mail. Durante a sua fala eu não vou me pronunciar. Alguma dúvida? “- Não”. Podemos começar? “- Sim”.  Liga o gravador.

        “-... será ada e encaminhada para o seu’mail. Durante a, não vou me pronunciar. Alguma dúvida?” Não. Será que alguém está me vendo aqui? “- Podemos começar?” Sim. Liga o gravador.  O meu começo foi através de um projeto social na minha cidade. Meu irmão passou em frente a uma Escola de circo e lá eu encontrei o Circo. Eu acabei entrando e desde o dia que eu entrei eu nunca mais quis sair. Eu acabei me apaixonando, viram que eu tinha potencial e me convidaram para uma trupe. Participei por um tempo. Cachê era pouco, era pouca profissão era pouca provisão. Formação certificada, contato, auxílio, projeto cultural. Eu vim para a Escola Nacional de Circo. Eu venho de um local onde o circo não é conhecido, não é divulgado. Projetos e lonas de circo são poucos, então no começo era assim: “- Não. Você tem que fazer uma coisa que te dê recurso, que te dê dinheiro". Agora, como eles viram que é isso que eu quero pra mim, eu tenho força de vontade em mim. Estão felizes após notarem o meu desenvolvimento e muito mais felizes por eu sair do meu Estado. Quem sabe eu volto. No começo ninguém acreditava. Eu não venho de família circense, meus familiares se preocupavam com a questão da formação. “- O que você vai ser da vida, sua carreira profissional, o que você vai fazer lá na frente? Até quando você vai ficar brincando disso...? Mas depois que eles viram tomando rumo como profissão e a própria escola como espaço de formação, eles entenderam que de fato existe a possibilidade. Eu me esforço a cada dia. Treinando e treinando, persistindo. Acho que talento vem da persistência, sua. Talento nasce. E claro que professores ajudam, eles apoiam e olham. Dão o tempo. Hop! Tive muita dificuldade. Sempre buscar. Ser. Realizar o melhor da forma. Realizar o melhor do tempo, do giro. Olhou o relógio? ...Triple volta. Tempo. Suspenso. Impulso. Mortal. Triplo mortal. Queda, quase eu caí. Esse ano eu volto. Caí… Eh... Enfim. Ah! Eu quero ser professor também. Quando voltar. Tracei os meus passos no Circo.  Antigamente eu treinava o que eu tinha vontade de aprender. Aqui tem grade. Eu não tinha o planejamento que tenho hoje. Treinávamos assim… Acho que é isso. “- Quer acrescentar algo mais?” Não. Talvez. Eu nem queria falar; parar pra pensar no tempo.  Giro-giro e giro mais uma vez. AleeeeHop!

                ...

        Que calor! Ciência? Não desconcentrar. Parede de vidro. “- Eu me esforço a cada dia, ando e treinando, psistindo. Q’ talento vem da (Que calor!) ência (Ciência?) sua. Talento nasce”. Talento nasce! Será que alguém está vendo? Linguagem não verbal. Atenção! Mortal. Suspenso no ar. Olha relógio na parede. Que fome! Dado o giro do salto vi ponteiros de ponta cabeça. Tempo. Suspenso. Duplo mortal. Queda. Perdi! Presença? Perdeu. Linguagem não verbal; olhei para o relógio. Que fome! Caímos. “- Eh... Enfim. Ah! Eu quero ser professor também.” Dados corrompidos. Depois o erro se diluí na análise. Junta uma perna com outro tronco, alguns braços e a minha cabeça. Ideia central. Frankenstein discursivo. “- Aqui tem grade.” Tem grade e paredes de vidro. Aqui também. Quer acrescentar algo mais? “- Não.” Obrigado por sua participação. “- Acho que fiquei um pouco nervoso.” Está ótimo. Desliga o gravador.


        - Acho que fiquei um pouco nervoso.

        - Está ótimo.

        Desliga o gravador

        - É mais fácil fazer um salto mortal do que falar sobre si.

       - Eu também acho. Eu parei no duplo mortal. Não fui além. Não deu tempo.

           - Você também é acróbata?

        - Sim. Aliás, vi você treinando o triplo mortal. Parabéns belo Giro!

     - Obrigado. Amanhã vamos treinar juntos? Eu te ensino o tempo do triplo.

           - Obrigado. Eu quero, mas não vai dar tempo.



                                       Luis Carlos Rodrigues dos Santos


domingo, 7 de março de 2021

PÁSSARO PRETO QUE POUSOU NO MEU QUINTAL: Ensaio sobre a escuridão.

 


                                                       

 Num dia muito claro, um pássaro preto pousou no meu quintal. Observar os pássaros tem sido uma bela distração. Pássaros são como pedaços do céu que colam e descolam da imensidão aérea que às vezes tocam o meu quintal de concreto. Olhar para o céu só por olhar! Na visão de alguns uma mania típica de quem não tem mais com o que se preocupar, uma fuga da realidade; alienação com os problemas do chão, insensibilidade dissimulada. A questão é que tudo isso não é verdade. Olhar para o céu “só por olhar” não faz jus à experiência vivenciada nesses tempos. Olhar para o céu só por olhar estimula a capacidade de ver, que por sua vez estimula a capacidade de contar, principalmente contar o que nos acontece no quando acontece. Porém essa história é tão escura quanto as penas do pássaro que pousou no meu quintal, composta por vultos e contornos em movimentos. Essa história como o pássaro preto é também um pedaço do céu que toca o meu quintal. 

Horas antes da luz acabar, uma pessoa caminhava com muita pressa. Dada a escuridão da história não é possível identificar especificamente de quem se trata, a não ser que é uma pessoa adulta e que provavelmente tem pressa para chegar, já havia anoitecido e essa pessoa saiu antes do sol nascer. Trabalhava sem o contato com a luz natural que vem de fora, vivia a maioria dos seus dias sob a luz artificial no interior de um prédio com poucas janelas. Durante o dia a pessoa notou que algo a estava seguindo, um gato talvez, um pedaço movente da escuridão. Enquanto isso, uma criança brincava. 

Uma hora antes da luz acabar a criança brincava sem nenhuma pressa, ia e vinha confiante na eternidade da infância. Sentada num balanço ia e vinha. Sempre ao fim do dia ia para o pátio debaixo da grande árvore onde o balançobrinquedo simulava o que a criança inconscientemente percebia. Vivia a maioria dos seus dias na escola, no interior de um prédio com muitas janelas onde todas as janelas eram pessoas e todas as pessoas eram janelas. Enquanto isso… Uma pessoa chamava: “ - Vem logo que eu estou com pressa. Vamos!”

Minutos antes da luz acabar a pessoa adulta e a criança estavam em casa de banho tomado e preparados para jantar. No sofá, cada um com seu prato de comida, as portas fechadas e todas as luzes apagadas, a casa totalmente escura. Exceto por um ponto luminoso na parede, quadrado,  maior que todas as janelas, brilhava diante dos dois a Televisão. Comiam e assistiam o Jornal da Noite, a pessoa adulta engolia o alimento enquanto comentava coisas sem sentido. A criança engolia os alimentos entre uma notícia e outra e às vezes repetia palavras por pura necessidade de ver o que a pessoa adulta dizia. Gostavam especialmente de repetir a palavra: “Mito”. Ambas não entendiam, mas gostavam; a pessoa adulta de repetir por repetir e a criança de dizer por dizer.  

Dez segundos antes da luz acabar, a pessoa adulta pediu para a criança por água nos lírios. A criança notou que tinha uma pedra no seu bolso e o adulto notou que algo o seguia. A criança achou a pedra tão bonita que a colocou na sua caixabrinquedo e de tanto admirá-la se esqueceu de pôr água nos lírios. Cinco segundos antes da luz acabar, do outro lado da casa a pessoa adulta perseguia a sensação do invasor. Caminhava no escuro até que chegou no corredor que dividia a casa em duas e subitamente acendeu a luz: “- É um ga..!” E a luz acabou.  

Aqui no quintal, histórias me afogam em um oceano pequeno; um metro e meio de água e sal. Dia e noite a luz em demasia me cega e a falta de sol minha pele incompleta. Não queria ver o pássaro preto em sua escuridão. Mas vi... Numa noite muito clara sua sombra revelou meus medos. Vôo rasante! Me abaixei por impulso e fechei os olhos por reflexo. Não vi… Olhei? Estranha é a imagem que não vemos! Até que num dia muito claro o pássaro preto pousou no meu quintal, tomei coragem e sem desviar o olhar encarei sua penas. Noite em pluma em pleno dia. Subitamente o pássaro voou, voltou para a noite e reintegrou-se ao céu no outro lado do mundo. Eu vi... Penas pretas na luz são coloridas, mas só por pouco tempo. Enquanto isso a história seguia. 

Horas antes da luz voltar, vejo claramente que a criança cresceu. Agora é quase adulta e sua pedra permanece na caixa de brinquedos. Restam poucas as janelas e os anos se passaram, a pessoa adulta ainda caminhava, caminhava no escuro, caminhava com muita pressa no escuro, caminhava com pressa de chegar. Uma hora antes da luz voltar a pessoa adulta insistia e ainda chamava:“- Vem logo que eu estou com pressa. Vamos!” mas ninguém respondia. Na grande árvore o balançobrinquedo com suas cordas puídas, estagnado não ia, não vinha e não suportava mais brincadeiras. Só. Minutos antes da luz voltar. Mito. Jornal da noite. Engolia o alimento enquanto comentava coisas sem sentido. Mit… Dizer por dizer. Mi... Repetir por repetir. A Televisão perseguia a sensação do invasor. Dez segundos. Mia… Cinco segundos antes da luz voltar caminhava no escuro na casa dividida em duas. Miau... Água nos lírios! M... morreu seco.  E a Luz voltou.  

“- Vi-vi sem ver?” 

Pergunta o adulto quando já não há mais tempo e nem pássaro. Quando já está escuro.

 


 

Luis Carlos Rodrigues dos Santos

A SUPOSTA AMEAÇA