quarta-feira, 22 de outubro de 2025

A SUPOSTA AMEAÇA


Duas quadras atrás, confirmei que estava sendo seguido. Não alterei o passo nem busquei uma rota de fuga, simplesmente mantive o meu caminho e o meu ritmo. Antes de sair de casa, tive o já habitual, e estúpido, pressentimento de que algo importante aconteceria. A esperança dos desesperados é achar que algo bom vai acontecer no novo dia. Só não desconfiava de que a minha sorte fosse justamente sofrer uma perseguição velada. Meu dia começou com uma suposta ameaça, e eu sabia que não havia como fugir.

Mais uma quadra se passou e eu continuo sendo seguido. Penso que o pressentimento que tive antes de sair de casa esteja relacionado ao sonho que tive naquela noite. Nele, eu andava sobre um muro muito alto; ao olhar para os lados, via lá embaixo as copas de muitas árvores - uma floresta vista de cima. Caminhava com uma segurança irreal para quem tem pavor de altura. À minha frente, ao longe, uma figura também caminhava sobre o muro. Certa vez ouvi dizer que os significados dos sonhos não estão nos acontecimentos ou nas imagens, mas nos sentimentos que neles expressamos.

A cada passo que eu dava no muro, a tranquilidade se transformava em medo de me defrontar com a figura que avançava na minha direção. O encontro, eu sabia, traria a ambos a dificuldade de continuar por aquele caminho. Cada passo se tornava angústia, ansiedade - e lá embaixo já não havia mais nada, apenas um penhasco branco dos dois lados. No entanto, por mais que eu andasse, a distância entre mim e a figura distante permanecia a mesma, e, de certa forma, infinita.

E mais uma quadra e quase me acostumei com o meu perseguidor. Faço esse caminho todas as manhãs, ele já faz parte do meu hábito. Se me deixo levar pelos pensamentos, como pela lembrança do sonho, entro em um estado automático e simplesmente ando. Ando e penso, não reparo em mais nada além das imagens do meu interior. Tanto que a ameaça que me segue deixou de me assombrar por alguns segundos.

O que me assombra agora é o que tenho que fazer no dia de hoje, e muitos foram os acontecimentos que me levaram a ter que me confrontar com essa tarefa - a maioria deles resultado de algo que eu propositalmente não fiz. De tantas e tantas vezes que propositalmente não fiz algo, a que mais importa é a que fiz por último.

Ontem pela manhã, quase no mesmo horário em que agora sou seguido, eu seguia alguém. Não me orgulho disso, de seguir alguém, mas eu seguia uma pessoa que se parecia muito comigo. Há muitos anos trabalho em uma loja de materiais de construção, e, em todo esse tempo, passo por esse mesmo caminho, atravessando essas sete quadras. Praticamente conheço todas as pessoas que cruzam essas ruas, até que vi a pessoa que se parece comigo, que tem o mesmo jeito de andar que eu. Ao entrar na grande avenida, antes mesmo de atravessar a primeira quadra, encontrei-a diante de mim, e era como se eu fosse a sua sombra.

Antes da loja de materiais de construção, antes do final da sétima quadra, há uma pracinha com praticamente uma única árvore e um único banco. Segui a pessoa até esse ponto, quando ela sentou-se no banco e ficou olhando para o chão com muita seriedade. Diminui um pouco o meu ritmo e, a alguns passos de me aproximar, ela subitamente levantou o rosto, olhou para mim e ficou me encarando até eu realmente passar por ela.

Apesar de se parecer bastante comigo, seu rosto e especialmente o olhar eram diferentes do meu. Estranhamente, talvez pela distância, eu não conseguia enxergar muito bem suas feições em detalhes; parecia que, quanto mais perto eu chegava, mais difícil era reconhecer e fixar algum traço. Cada passo que eu dava em sua direção era como se o rosto se transformasse. A pessoa que eu perseguia, em um gesto leve e silencioso, me convidou para sentar ao seu lado. Passei pela sua frente, encarando aquele rosto que não parava de mudar, mas que, sob todas as formas, me era estranhamente familiar.

Acelerei o passo e passei quase correndo. Propositalmente neguei-lhe o convite e evitei cruzar olhares, ignorei a sua perturbadora presença. Segui mais alguns passos sem hesitar, ainda que sentisse o efêmero peso do seu olhar me acompanhando enquanto eu ia embora.

Aproximadamente cem metros sem olhar para trás, e cheguei à loja de materiais de construção. Alguns colegas de trabalho já estavam ali e iniciamos o expediente. Duvido que alguém tenha desconfiado de qualquer comportamento estranho da minha parte, mesmo eu estando confuso e intrigado com o encontro anterior.

O dia passou sem grandes novidades, até que o último cliente entrou na loja minutos antes de fecharmos. Fui atendê-lo e, para o meu espanto, ele se parecia com o meu pai quando o vi pela última vez, exceto por alguns detalhes muito sutis, como o jeito de mover a boca ao falar “tijolo” ou “quantidade”, e pela aparência jovem. Faz trinta anos que não vejo o meu pai, e aquele homem era, sem dúvida nenhuma, outra pessoa.

“Preciso de uma quantidade grande de tijolos para a construção de um muro de cinquenta metros de comprimento por três de altura. Vocês conseguem entregar esse material amanhã, antes do meio-dia? Estão assaltando as casas do meu bairro e quero fazer um muro bem alto.”

Perguntei se já haviam entrado ladrões em sua casa. Ele respondeu que não. Perguntei então quantas casas haviam sido roubadas no bairro, e ele disse que, teoricamente, nenhuma, apenas uma prevenção para a crescente ameaça dos tempos atuais. Compreendi a preocupação daquele homem; afinal, são tempos difíceis, e não podemos, como diria meu pai, baixar a guarda.

Aliás, estou agora passando pelo banco da pequena praça e ainda sei que estou sendo seguido. Preciso chegar à loja para despachar o material para o muro do meu cliente, porém decidi encarar o meu perseguidor, assim como ontem a pessoa que eu perseguia fez. Sentei no banco e fiquei esperando o confronto, uma troca de olhares.

A pessoa diminuiu o passo e lentamente se aproximou de onde eu estava. Não consegui reconhecê-la de imediato, ainda assim tenho a leve sensação de já a conhecer. Ela se aproxima mais e subitamente me encara, mas rapidamente desvia o olhar e praticamente sai correndo. Mesmo sendo por um instante, consegui ver as suas feições: o meu perseguidor tinha o meu rosto, a não ser por um detalhe. Seus olhos tinham cores diferentes um do outro, um azul e outro amarelo.

Vendo-o ir embora, fico alguns segundos assimilando a estranha coincidência. Exceto por aqueles olhos tão diferentes dos meus olhos castanhos, ele era quase eu. Meus olhos castanhos... Tiro o celular do bolso e me vejo na câmera frontal. Analiso com mais cuidado os meus traços — a testa, as sobrancelhas, o nariz e a boca - e, por fim, me encaro nos olhos. E finalmente a suposta ameaça se revela: eu ainda estou aqui e não sei nomeá-la.



Luiz Carlos Rodrigues dos Santos


A SUPOSTA AMEAÇA