Num dia muito claro, um pássaro preto pousou no meu quintal. Observar os pássaros tem sido uma bela distração. Pássaros são como pedaços do céu que colam e descolam da imensidão aérea que às vezes tocam o meu quintal de concreto. Olhar para o céu só por olhar! Na visão de alguns uma mania típica de quem não tem mais com o que se preocupar, uma fuga da realidade; alienação com os problemas do chão, insensibilidade dissimulada. A questão é que tudo isso não é verdade. Olhar para o céu “só por olhar” não faz jus à experiência vivenciada nesses tempos. Olhar para o céu só por olhar estimula a capacidade de ver, que por sua vez estimula a capacidade de contar, principalmente contar o que nos acontece no quando acontece. Porém essa história é tão escura quanto as penas do pássaro que pousou no meu quintal, composta por vultos e contornos em movimentos. Essa história como o pássaro preto é também um pedaço do céu que toca o meu quintal.
Horas antes da luz acabar, uma pessoa caminhava com muita pressa. Dada a escuridão da história não é possível identificar especificamente de quem se trata, a não ser que é uma pessoa adulta e que provavelmente tem pressa para chegar, já havia anoitecido e essa pessoa saiu antes do sol nascer. Trabalhava sem o contato com a luz natural que vem de fora, vivia a maioria dos seus dias sob a luz artificial no interior de um prédio com poucas janelas. Durante o dia a pessoa notou que algo a estava seguindo, um gato talvez, um pedaço movente da escuridão. Enquanto isso, uma criança brincava.
Uma hora antes da luz acabar a criança brincava sem nenhuma pressa, ia e vinha confiante na eternidade da infância. Sentada num balanço ia e vinha. Sempre ao fim do dia ia para o pátio debaixo da grande árvore onde o balançobrinquedo simulava o que a criança inconscientemente percebia. Vivia a maioria dos seus dias na escola, no interior de um prédio com muitas janelas onde todas as janelas eram pessoas e todas as pessoas eram janelas. Enquanto isso… Uma pessoa chamava: “ - Vem logo que eu estou com pressa. Vamos!”
Minutos antes da luz acabar a pessoa adulta e a criança estavam em casa de banho tomado e preparados para jantar. No sofá, cada um com seu prato de comida, as portas fechadas e todas as luzes apagadas, a casa totalmente escura. Exceto por um ponto luminoso na parede, quadrado, maior que todas as janelas, brilhava diante dos dois a Televisão. Comiam e assistiam o Jornal da Noite, a pessoa adulta engolia o alimento enquanto comentava coisas sem sentido. A criança engolia os alimentos entre uma notícia e outra e às vezes repetia palavras por pura necessidade de ver o que a pessoa adulta dizia. Gostavam especialmente de repetir a palavra: “Mito”. Ambas não entendiam, mas gostavam; a pessoa adulta de repetir por repetir e a criança de dizer por dizer.
Dez segundos antes da luz acabar, a pessoa adulta pediu para a criança por água nos lírios. A criança notou que tinha uma pedra no seu bolso e o adulto notou que algo o seguia. A criança achou a pedra tão bonita que a colocou na sua caixabrinquedo e de tanto admirá-la se esqueceu de pôr água nos lírios. Cinco segundos antes da luz acabar, do outro lado da casa a pessoa adulta perseguia a sensação do invasor. Caminhava no escuro até que chegou no corredor que dividia a casa em duas e subitamente acendeu a luz: “- É um ga..!” E a luz acabou.
Aqui no quintal, histórias me afogam em um oceano pequeno; um metro e meio de água e sal. Dia e noite a luz em demasia me cega e a falta de sol minha pele incompleta. Não queria ver o pássaro preto em sua escuridão. Mas vi... Numa noite muito clara sua sombra revelou meus medos. Vôo rasante! Me abaixei por impulso e fechei os olhos por reflexo. Não vi… Olhei? Estranha é a imagem que não vemos! Até que num dia muito claro o pássaro preto pousou no meu quintal, tomei coragem e sem desviar o olhar encarei sua penas. Noite em pluma em pleno dia. Subitamente o pássaro voou, voltou para a noite e reintegrou-se ao céu no outro lado do mundo. Eu vi... Penas pretas na luz são coloridas, mas só por pouco tempo. Enquanto isso a história seguia.
Horas antes da luz voltar, vejo claramente que a criança cresceu. Agora é quase adulta e sua pedra permanece na caixa de brinquedos. Restam poucas as janelas e os anos se passaram, a pessoa adulta ainda caminhava, caminhava no escuro, caminhava com muita pressa no escuro, caminhava com pressa de chegar. Uma hora antes da luz voltar a pessoa adulta insistia e ainda chamava:“- Vem logo que eu estou com pressa. Vamos!” mas ninguém respondia. Na grande árvore o balançobrinquedo com suas cordas puídas, estagnado não ia, não vinha e não suportava mais brincadeiras. Só. Minutos antes da luz voltar. Mito. Jornal da noite. Engolia o alimento enquanto comentava coisas sem sentido. Mit… Dizer por dizer. Mi... Repetir por repetir. A Televisão perseguia a sensação do invasor. Dez segundos. Mia… Cinco segundos antes da luz voltar caminhava no escuro na casa dividida em duas. Miau... Água nos lírios! M... morreu seco. E a Luz voltou.
“- Vi-vi sem ver?”
Pergunta o adulto quando já não há mais tempo e nem pássaro. Quando já está escuro.
Luis Carlos Rodrigues dos Santos

Luís, que lindo texto.
ResponderExcluirHei Luis !
ResponderExcluirMuito bacana seu texto!
Angustiante, um galope crescente de sensações, imagens que nos empurram para uma conclusão, que evocam reflexões, nos tiram do leito macio da nossa "auto comiseração".
Vai com tudo Luiz!
Os absurdos cotidianos que já viraram só cotidiano. Sem tempo pra ver o sol, sem tempo pra dormir o sono!
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