sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

CRÔNICAS PARA UMA EXPERIÊNCIA MAIOR : Histórias curtas de alteridades e de longos reconhecimentos.

 

                                                               

                        "Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu.
                          Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil.
                          Minha experiência maior seria ser o outros dos outros.
                          E o outro dos outros era eu." (Clarice Lispector)


1.De dentro do carro, confortavelmente com os seus pais, a criança encara outra criança que está sozinha lá fora e que chora com as mão estendidas pedindo esmola. A criança no conforto do carro que agora vai embora, chora uma dor que não é sua, mas que daquele instante em diante lhe pertence. 


2.O homem anda com passos rápidos e secos em direção ao mercado. Preocupado com o preço do pão ele anda rápido por fora e seco por dentro, mas existe outro incômodo que não é o preço do arroz e nem do feijão, não é também o preço da luz! Não… O preço de tudo não o incomoda mais e o mercado está longe, muito longe. E alguém que até agora não foi notado, outro homem na outra calçada da avenida, também caminha. Ele caminha descalço e semi-nu com apenas um cobertor entre os ombros. Os dois homens caminham juntos em uníssono os mesmos passos, rápidos e secos. Avançando a mesma perna e depois a outra, ambas no mesmo ritmo. Entre eles existe uma grande avenida; apenas um deles está calçado.


3.“Aqui não tem nada que me interessa.” Disse o adolescente ao professor que naquela mesma manhã leu no poema do Mário Quintana que: “Todos os jardins deviam ser fechados, com altos muros de um cinza muito pálido, onde uma fonte pudesse cantar sozinha entre o vermelho dos cravos. O que mata um jardim não é mesmo alguma ausência nem o abandono… O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem por eles passa indiferente.” Professor e aluno notaram-se em silêncio e olharam-se com olhos grandes e profundos capazes de ver até a fonte. “Não. As pessoas… As pessoas me interessam professor." Concluiu o adolescente que refletido no sorriso oculto do professor, como um jardim, tinha sido visto. 




Luis Carlos Rodrigues dos Santos


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