sábado, 18 de fevereiro de 2023

O LAGO: A PEDRA E O INSETO; O VENTO E O PEIXE





Em um lago, a superfície se mantém parada até que alguma perturbação lhe cause agitação. Uma pedra ou um inseto, por menores que sejam, são suficientes para transformar a aparente tranquilidade. O vento, ainda que invisível e complicado de pesar, implica em diversas danças, infinitas mudanças. O peixe por sua vez, diferente dos agentes externos às profundezas, é a expressão viva da vontade que pulsa de dentro do próprio lago. Nessa história eu serei a pedra e o inseto, serei também, o vento e o peixe, mas principalmente eu serei o lago, pois eu sou, assim como você, a superfície e a profundeza.


Hoje na escola em que trabalho, uma criança jogou uma pedra em outra criança, a ferida no olho esquerdo impressionou a todos que estavam no pátio na hora do acidente. O sangue escorrendo como lágrimas, de fato misturado com as lágrimas, dava a impressão de que a dor que a criança sentia mudaria a partir daquele instante todos os seus pontos de vista. Algumas crianças e até algumas professoras diziam: "Ela vai ficar cega!” Minutos antes, fui até o banheiro da sala dos professores. Não necessariamente motivado por necessidades fisiológicas, ainda que habitasse em mim dores abdominais, havia sim a necessidade latente de receber uma mensagem. Me isolei para olhar o celular e confirmar minha ansiedade. Olhei a mensagem dela que dizia: “Combinado! Estarei lá.”  


Mais tarde ao chegar em casa me deparei com um gafanhoto na maçaneta da porta da frente. Para minha maior surpresa, as plantas nos fundos da casa estavam todas mortas. Seria sorte ou bom presságio? Certamente não para as plantas, pois para elas, da minha perspectiva sombria, o inseto verde significa apenas morte. Mas quem sou eu para dar significados a gafanhotos ou a plantas… ou a morte? Da minha perspectiva só pode haver vida e êxtase, afinal hoje à noite estaremos juntos pela primeira vez. A saia que ela vestiria seria verde como era verde o meu quintal antes daquele inseto?.. Como era verde o vestido que ela vestiu no nosso eterno e primeiro beijo! Como é verde: o gafanhoto e sua comida.   


Não me importei completamente nem com a criança e nem com as plantas, mas traços de vermelho e verde ficaram estampados em todos os meus gestos. Não me importei, não por falta de sensibilidade e cuidado, mas por uma tendência aérea presente em minha personalidade que é por vezes racional e volátil. 


Os ventos, as grandes massas aéreas são por excelência consequências da rotação da Terra e se estamos todos girando sem perceber, os ventos nos lembram que somos movimento até quando estamos parados, até quando estamos imunes às constantes brisas do giro. Ao sair de casa e a cada passo àquele encontro, era como se todo planeta me tocasse o rosto, como se fossem somente os meus passos apressados a força que impulsiona o globo. Sendo eu uma nuvem poderia deslizar sem pensar no olho da criança ou na morte das plantas. Não pensei em mais nada e a face lisa do lago se revelou além e bem mais além das expectativas e das memórias, das saudades e das preocupações. Não havia vento e não havia inseto, não havia uma pequena pedra sequer. Apenas uma paisagem estática que se movia em direção a ela, àquela que por mensagem já havia confirmado sua presença. 


Hoje na escola em que trabalho, uma criança jogou uma pedra em outra criança e não foi por maldade de pontaria. A mira espontânea emergiu de um lançamento inocente e que depois daquele instante-incidente perdeu espontaneidade e ganhou precisão. A criança cresceu um pouco mais depois que a pedra saiu de sua mão? A pedra ainda está no ar… E a outra criança não ficou cega. Será que ela também cresceu um pouco mais naquele dia, ainda que às custas de sangue e de lágrimas? 


Quando eu vim morar nesta casa, as plantas já estavam aqui, não plantei nem uma planta naquele quintal, contudo observei o nascimento de cada folha, que da noite para o dia brotavam em espirais. Agora, carrego comigo o inseto para me lembrar que a morte é um ser vivo sem ossos, que a sorte tem um corpo geométrico e as pernas finas. Carrego comigo um gafanhoto faminto nos bolsos. 


Depois de eu a ter encontrado e depois de nos amarmos sobre a sua roupa verde, dormi em seus braços e sonhei outra vez com o peixe, - desta vez ele não estava no aquário. Nós dois nus refletidos no espelho do teto, ali mergulhei nela e na imagem do animal. Pela janela aberta, uma brisa suave, o próprio movimento da Terra, invadia a região oleosa. Desta vez o peixe habita uma folha em branco. Entre a face lisa do lago e a lama pastosa do fundo, o peixe flutua suavemente no meio do caminho. 


Quando voltei para casa, minhas roupas estavam todas espalhadas pela rua e minha chave já não abria a porta da frente. Recolhi minhas roupas, lancei minha chave no espaço e caminhei até meus pés se dissolverem no asfalto. Quando acabou o asfalto, estava completamente perdido e sem bases.  A estrada ficou estreita e cercada por novas plantas que desde o início dos tempos cresciam plenamente verticais. No final desta vereda eu encontrei o lago que sempre esteve lá. Mais uma vez me despi e desta vez sem amor ou ansiedade. Tirei o gafanhoto do meu bolso e abracei a pedra que continuava no ar e só depois entrei no lago. Em mim submergi e nunca mais voltei à superfície e as brisas do giro, ainda sim, eu sou a pedra e o inseto, sou o vento e o peixe. 


Sou inteiramente um lago que espera sereno algum mergulho.




Luis Carlos Rodrigues dos Santos


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