quinta-feira, 19 de dezembro de 2024

O QUEBRA-CABEÇA





Procurou em diversas lojas até encontrar e comprar o maldito quebra-cabeças. Era um jogo com mil peças, com um desenho que, ao meu ver, não tinha nada demais… Que importância tinha eu para gostar ou não gostar daquele desenho? Afinal, não iria me debruçar por muito tempo sobre aquele colorido de mil pecinhas. Era uma vontade que não me pertencia. Porém, demorei para perceber que de fato aquela não era tarefa minha. 


Noites e noites, eu acompanhava o seu empenho em montar peça por peça. Algumas vezes, eu palpitava por querer participar. Às vezes eram palpites precisos, mas tantas e tantas vezes eram perfeitas imprecisões da minha visão. Eu nunca toquei em nenhuma peça, só me cabia ver e observar aquele amontoado. De tanto me acostumar a somente ver e observar, eu ignorei a presença do quadro inacabado que ocupava a minha sala.


Um ano se passou desde que o jogo entrou em casa e a cada peça, a sincera promessa de finalização, mas a cada encaixe novos buracos apareciam. A incompletude sobre a mesa de centro foi o retrato da sua presença naquele ano. Entendi, assimilei aquilo como um hábito seu. Respeitei, mas deixei de torcer pela conclusão. Um ano se passou e começamos a nos desencontrar pela casa. O dia começava e terminava com a sua presença que durante o dia variava de precisão.


Outro ano se passou e de repente, por progresso do seu esforço, o quebra-cabeça parecia ir em vias de se completar. Neste ano nunca vi um sorriso seu ou ouvi a expressão de alguma alegria. Outros meses se passaram e sua expressão foi se tornando mais embrutecida. Três anos se passaram desde que o quebra-cabeça se instalou aqui. Depois de tanto tempo, resolvi olhar para a mesa de centro. Para minha surpresa, faltava apenas uma peça. Que, por sinal, não estava ali - onde antes havia um amontoado de peças. 


Tínhamos o velho hábito de dormir e acordar juntos, ainda que sob o mesmo teto não convivíamos e nem conversávamos mais, até que em uma certa manhã você foi embora, sem dizer para onde iria, deixando para trás a nossa casa e o empoeirado quebra-cabeça incompleto, em uma pequena mesa no canto da sala. 


Hoje mais cedo, depois de tanto tempo desde que você foi embora, resolvi mudar os estáticos móveis de lugar, mudei tudo até ficar bem diferente. Deixei o quebra-cabeça por último na arrumação. Quase não era possível ver o estranho desenho, que até então para mim não fazia pouco sentido e que quase não me tocava, não tanto quanto a falta. Depois de refletir sobre o que eu faria com aquilo, emoldurei o quebra-cabeça exatamente como você deixou e o pendurei na cabeceira da minha cama. 


Agora, depois de décadas da sua ausência, você reaparece. Abre a porta e me assusta, não fala comigo e não olha pra mim. Abre o meu armário e explora todas as gavetas, desarruma todos os meus cabides, até encontrar um casaco que eu tinha tido como perdido, do bolso esquerdo tira a peça que faltava para completar o jogo. Agora, você pega a minha mão e me olha nos olhos... Quero completar o quadro com você e contemplar o desenho? Enquanto andamos pela casa, ela volta a ser como era antes de você partir e o meu coração se enche de alegria novamente.


Agora, exatamente neste momento, colocamos a última peça no quebra-cabeças. Finalmente compreendo a sua imagem, reconheço o seu desenho… Ele sou eu, ele é você, ele somos nós aqui. Sempre foi! Pelo menos deste que este maldito quebra-cabeça entrou em nossa morada.



Luis Carlos Rodrigues dos Santos 

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