terça-feira, 26 de setembro de 2023

E ONDE SERÁ O AFTER?



Tim Maia é o piloto da nave e todos cantam juntos: “We are gonna rule the world. Don't you know, don't you know. We are gonna rule the world. Don't you know, don't you know. We're gonna put it together”. As luzes da nave são muito brilhantes, não mais brilhantes do que as luzes das galáxias passando rápido pelo vidro. Alguns passageiros não entendiam muito bem a mensagem do capitão, mesmo assim cantavam, mesmo assim dançavam entre as estrelas. Na tela do painel de controle um alfabeto estranho não continha traços e composto apenas por imagens disformes e luminosas, indicavam algum perigo iminente, ainda sim a nave seguia em alta velocidade. Perigo, era justamente o som parar de uma vez e o silêncio do espaço se sobrepor ao tempo sincopado dos corações envolvidos naquela viagem.


Eu era um dos tripulantes e minha percepção não conta muito. Não conta tudo, pois outras pessoas tripulantes tiveram percepções diferentes da viagem, afinal as paisagens eram completamente transformadas a cada segundo, cumpriam ciclos inteiros num lapso, qualquer apreciação era efêmera e plenamente individual. Se você, por um acaso for alguém que participou dessa viagem, complete esse meu relato com suas próprias paisagens e seus próprios sons, me complete com sua experiência. Agora, se você nunca esteve em uma nave: Boa viagem!


Era uma vez um reino muito distante. Lá havia uma cidade e uma floresta. Havia também uma montanha bem alta que era o ponto central. A cidade como um anel vestia a montanha e a floresta como um grande colar adornava de verde a cidade. Harmonia geométrica, estampa de tapete, estampa de tecido que cobre um corpo nu. No alto da montanha havia uma ave solitária, um gavião que contempla os círculos enquanto descansa depois de um longo voo noturno. Na floresta, os animais viviam suas vidas particulares e coletivas. O urso e a rã eram amigos, assim como o ornitorrinco roxo era camarada do gato laranja. Isso, do alto, a ave podia ver na floresta. Já na cidade, os habitantes estavam insatisfeitos com suas diferenças, mas isso não era visível, nem mesmo para o gavião no alto da montanha. 


Anos-luz dali, também existe um reino, este porém, é uma comunidade de seres imortais que vivem em um lugar chamado “Entre”. Poderíamos chamá-los de Deuses? Talvez. Pois, esses seres não têm forma nem idade. Poderíamos chamá-los de Humanos? Talvez. Pois, esses seres dançam e sorriem, cantam e choram. No Entre vivem. Entre o passado e futuro, entre o dentro e o fora. No Entre.


Na cidade de São Paulo em 2023, sexta-feira à noite, as ruas estão cheias de brilho e de lixo. Trânsito nas marginais, sirenes no centro e sangue nas periferias. Alguém que só corre pelo certo e que só quer se divertir no final de semana, segue na caminhada de volta para a casa depois de uma semana de trabalho com a expectativa de um rolê infinito. A Estação da Luz, às 19h é tanta gente, são tantas travessias e tantos pensamentos confinados nos passos apressados da multidão. Entre tanta gente, os passos e os pensamentos de alguém que só corre pelo certo, essa noite irão atravessar. “Essa noite um portal foi aberto.” Foi o que ela disse depois da AfroJam. Enfim… Isso foi bem mais tarde. Sobre o meio, sobre o que aconteceu entre esses acontecimentos, uma coisa deve ser dita: o trajeto para a casa depois do trabalho não tem nada de interessante aqui neste relato panorâmico. Sabe-se que a pessoa que corre pelo certo seguiu o fluxo entediante da cidade alucinada e chegou em casa com uma paz terrível e uma vontade raivosa. Relaxar um pouco antes de ir para o rolê, tomar um banho e uma cerveja. Na geladeira a última latinha do último after. No fim, tomou o desejado banho quente ao mesmo tempo que se banhava com a cerveja gelada esquecida. Assim firmou-se o início.


Antes de pousar no alto da montanha, o gavião havia voado por muitas horas. Na verdade, ele atravessou a noite adentro. Mas antes de levantar voo o gavião foi atingido por uma pedra que foi lançada no início dos tempos por um deus ancestral. A pedra certeira, mais o assustou do que o feriu. Ele levantou voo ligeiro e não parou de voar até cruzar o medo da cegueira. Cegueira que a vasta noite não o deixava esquecer. O medo de não ver era maior do que o medo da noite. Voou muito até que o dia nasceu e ele enxergou novamente, só então pôde pousar tranquilo naquela montanha. Curiosamente, a montanha estava lá desde o início da viagem do gavião. No seu voo cego, o pássaro já a orbitava e era a escuridão o impedia de vê-la, e nem perceber que a própria noite era na verdade uma espiral ascendente que ia do chão até o cume da montanha. O gavião era um dos animais da floresta e ele quase não se lembrava disso, tinha como característica da sua espécie uma espécie de solidão escura. 


Tim Maia desvia dos asteróides, contorna nebulosas e atravessa buracos negros. A nova colônia dessa vez será diferente, os sobreviventes da civilização colapsada, do que a tempos atrás foi chamada de Humanidade, são justamente os que não tiveram sua História contada, são os que não foram humanizados. O planeta Terra foi devastado e passaram mais de mil anos desde que os habitantes do Entre mandaram a primeira mensagem: “Apenas um.. Apenas um contato, irá fazer nossa união legal.” 


Os que moram no Entre, são os Infinitos. Existências de muita autonomia. Ainda sim, os limites entre o ser e o não ser dessas criaturas, são muito sutis e instáveis. Por isso, qualquer narrativa sobre os Infinitos é sempre uma missão arriscada para qualquer traço e para a escrita desta história, será necessária tal empreitada. No Entre não há tempo e tudo é uma presente-presença. Suas ações são transdimensionais e suas motivações são paisagens inteiras.


A cidade e a floresta são paisagens inteiras e completamente diferentes, elas coexistem, porém em tempos diferentes. Na cidade de São Paulo em 2023, sexta-feira à noite, as ruas estão cheias de brilho e de lixo. Trânsito nas marginais, sirenes no centro e sangue nas periferias. Alguém que só corre pelo certo, só quer se divertir e enquanto isso o gavião no alto via tudo. Nitidamente a floresta no pé da montanha e a cidade bem mais além, que para ele era uma distorção da visão. Na floresta, o urso e a rã, o ornitorrinco roxo e o gato laranja, se perguntavam: “Nós temos tudo aqui! O que o gavião foi fazer no alto da montanha?”


Sexta-feira, 2023. A noite está quente e não deve ser desperdiçada. Alguém que segue em direção aos encontros, está agora na estação da Sé. Acima uma cruz, um marco zero grafado na praça. As linhas azul e vermelha do metrô,  além e bem fundo no chão, formam outra cruz. Ali, nos entrecruzamentos, alguém que só corre pelo certo é ponto central que segue seu caminho para o centro da cidade e também para o centro da noite. Nos fones de ouvido um puta som. Enquanto isso no Entre uma das existências procura algo no fundo do seu ser ou não ser, algo que podemos comparar com uma bolsa, aproximação puramente narrativa. O gesto deste ser Infinito expressa uma vontade coletiva transdimensional.


Tim Maia no comando da nave não tem dimensão da importância da sua missão, ele apenas mantém o beat da viagem e desvia de asteroides e de galáxias em colisão. O painel de controle tem teclas brilhantes que mudam de cor diante dos corpos celestes. Um belo teclado de sete oitavas de possibilidades conduz todos os movimentos da nave. “Mas lendo atingi o bom-senso, a imunização.” 


Que teclado é esse? Ele me derrete e me atiça! Sonzera. 


Em frente ao local do baile, uma placa luminosa escrito AfroJam. Tira os fones de ouvido e outro som invade o seu corpo. A pista está formada em tons vermelhos, repleta de perfumes, é um atrator do caos. O som é forte e tem um sampler de um som do Tim Maia Racional. Coincidência, é o que ouvimos durante a viagem toda, é o que ouvimos agora também, você e eu. Alguém que só quer se divertir, na pista de dança fecha os olhos para ver outras luzes, tão intensas quanto as que presenciamos enquanto estávamos na nave.


O gavião incomodado com a distorção da visão que a cidade distante lhe impunha, decidiu iniciar outro voo, desta vez motivado por vontade própria e não fugindo de uma pedra vindo sei lá de onde. Ele atravessaria a floresta na nova noite, agora uma reta em direção ao coração da cidade. Ele deu um salto e abriu suas asas no momento exato que o sol se pôs. O urso e a rã, o ornitorrinco roxo e o gato laranja, olharam para cima e já não viam mais nada, nem a montanha e nem o gavião.


O calor é intenso na pista de dança. Resolve dar um pausa e sair um pouco para tomar um ar. Lá fora, algumas pessoas amigas estão trocando ideias sobre as correrias e as paixões da vida. Encosta e colabora com a ideia. Por um lapso, olha para cima e contempla a noite de lua nova e suas poucas estrelas. Nota algo diferente, um brilho intenso risca o céu e alguém lhe chama a atenção, bate no seu ombro e estende a mão oferecendo um pedacinho de papel, alguém que só quer se divertir, colocou o papel na língua e voltou para dentro do baile enquanto uma banda formada ali começava a tocar um groove de improviso, de relance alguém pergunta: “E onde será o after?” 


Isso aconteceu a muitos anos atrás e eu também estava nesse baile, ouvi a pergunta e também vi um risco no céu. Isso foi antes da mensagem e da grande explosão. Em 2023 o mundo e a humanidade tal como conheciamos acabou. Naquela época as pessoas já tinham uma noção de que o sistema global entraria em colapso, seja ele de ordem climática ou proveniente de movimentos de guerra entre as nações. No entanto, o final do mundo ocorreu por um motivo inesperado, uma pedra muito grande vindo sei lá de onde atingiu o planeta. 


No Entre uma das existências procura algo no fundo do seu ser ou não ser. Para seu próprio espanto um fato inédito aconteceu ali cuja a monotonia do eterno se sobressai, uma parte do seu ser ou não ser se materializou. Uma vontade transdimensional forte o suficiente, foi capaz de mineralizar parte da alma de um dos Infinitos. A existência retirou de dentro da bolsa uma pedra rude. O pedregulho feio e poroso, escapou da posse do ser sem forma do Entre e foi lançado no espaço. Por não haver tempo naquele lugar, a rocha seguiu, ao mesmo tempo, em diversas direções opostas, seguindo para os supostos limites do Entre: O lá e o ali. 


Ao romper a barreira do lá, a rocha se transformou em uma pequena pedra e caiu na floresta onde viviam o urso e a rã, o ornitorrinco roxo e o gato laranja. Na floresta, onde, distraidamente, no chão estava o gavião refletindo sobre a sua vida alada, poucas vezes ele se atrevia a ficar no solo próximo às raízes. Mas o seu pensamento estava no mais profundo estado melancólico, o gavião duvidava da sua existência e questionava a sua capacidade de visão e de voar, ele parou e pela primeira vez deitou no chão e quis ouvir o coração da terra, pois no céu havia  somente uma respiração pura, um fluxo de ar sem sangue e calor. Quando o gavião ouviu o reflexo do seu próprio coração no som do coração da terra, a pedrinha caiu e o assustou, motivou o seu primeiro voo noturno.


Ao romper a barreira do ali, a rocha se transformou em um enorme meteoro que caiu sobre a cidade de São Paulo na madrugada de sábado em 2023. Alguém que só corre pelo certo e só quis se divertir, presenciou o momento em que a nave do Tim Maia posou em frente a AfroJam e resgatou todos que estavam naquele rolê. Enquanto tudo explodia, a viagem começava e agora é também uma tripulante aqui. 


“Essa noite um portal foi aberto”. Foi o que ela me disse antes de entrarmos na nave. No Entre as existências infinitas vivem num único ponto, são conscientes e alheias a tudo que eu contei nesta história. O Tim Maia ainda pilota a nave sem conhecer a sua missão e mantém o som, nós estamos a salvo deitados no tapete da casa de alguém que também só corre pelo certo. O After está no Agora, mas somente para quem recebeu a mensagem contida naqueles papéis. É noite longa… O gavião ainda está voando em direção a cidade distorcida que nunca chega, que derrete enquanto explode diante dos olhos. 



Luis Carlos Rodrigues dos Santos

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